terça-feira, 26 de maio de 2026

Montras da Vida


É no final da vida que a idade nos vem mostrar o que já fomos. Olhamo-nos ao espelho e vemos o rosto com rugas, a pele com cicatrizes. As mãos ganham os calos da vida, e a vida morre com a saudade que nos fez sofrer. Calamo-nos, ficamo-nos pelo silêncio, a olhar pela janela, sentados numa cadeira de madeira. Montras. É no que nos transformamos no fim da nossa vida. Montras de vidas, montras de memórias, de risos e lágrimas. Com o orgulho do lado de dentro e a saudade do lado de fora.
O barco em que navego pela vida que me resta, está muitas vezes, longe do meu porto de abrigo.


sábado, 16 de maio de 2026

Feito de Palavras


Tudo o que me torna gente são palavras. Amontoados de palavras, curtas, pequenas, largas, grandes, complicadas, simples. Moldam-me à sua maneira, criando este ser que hoje sou. Este eu que se cria e renova a cada minuto, a cada hora. O tempo não existe dentro de mim, não há um limite de palavras. Tudo se transforma dentro de uma certa vida que só as palavras conhecem em pormenor.
Expresso-me em letras que se transformam em textos, carregados de expressões, dores, sentimentos. Vontade de chegar ao topo, ultrapassar o limiar do céu, e depois cair sem corda, sem nada que ampare a queda. São essas letras que criam o ser, o individuo. Criam-me a mim na gente e na alma.

quinta-feira, 7 de maio de 2026

O Peso da Palavras - Parte II


Julgava que vivíamos todos os dias para poder sentir emoção sobre as sete camadas de pele que temos no corpo, para a adrenalina fazer fervilhar o nosso sangue e palpitar o coração ao estilo de um ataque cardíaco.
Em vez disso, por vezes, surgem do nada as quedas, as ilusões, as palavras desmotivadoras que espetam mais que facas acabadas de afiar, que nos fazem despertar a dor.
E, quando já nada importa, parece que a vida deixa de fazer sentido, tudo se perde, e caímos numa decadência quase infinita. Por vezes sou esse fantasma, que aos olhos de outrem não passo de um monstro, repleto de cicatrizes e falhas que me contornam o corpo, e, principalmente, a alma.
Talvez venha a recuperar, a erguer-me, a sair mais forte. Mas não será hoje. Nem amanhã. Será algures...