segunda-feira, 26 de setembro de 2016

Outros Tempos


Fossem os tempos outros e não poderia pintar as flores que te apresento a preto e a branco com as cores da vida. Fossem outros os tempos e talvez o amor nada tivesse tão forte como o sorriso no rosto de um anjo como tu. Fossem outros os dias em que o sol raiasse acabando por fim de fazer suar os corpos que juntos trocam as palavras do amor.
Fossem os tempos do passado tão bons como os de agora e fossem os de agora tão bons como os do passado. Por muitas horas que passe ao teu lado nada substituirá os minutos que perdi a olhar para ti, observando o teu rosto e os teus gestos, estudando cada movimento teu, para que um dia mais tarde me possa lembrar de tudo.

domingo, 18 de setembro de 2016

Vírus


Deixei o bicho entrar. Trepou por mim acima e instalou-se bem aconchegado na zona do meu peito, na caixa torácica, do lado esquerdo. Recebi-o calorosamente e nada do que possa fazer alterará o seu habitat.
Não derivo de ninguém, ninguém deriva de mim. Sobrevive sem mim, eu sim não sobrevivo sem ele. Não faz sentido, nem o sentido o faz. Nada sei, não sei nada e sei de cor o trilho que ele segue, os sintomas que se manifestam em cada poro do meu corpo. Nada é o que parece ser. Não há qualidade na minha existência senão a que a ele lhe reservo. Alimento-o.
Não derivo de ninguém, mas ele deriva de mim, como um pedaço de vidro espelhado partido nos meus olhos. Deriva sem autorização, sem que eu lhe permita.
Deixei o bicho entrar. A mossa que ele fez já está demarcada, a ferida que ele abriu mantém-se por sarar. Constrói o seu próprio mundo. Existe para além do que vejo e ainda assim não vejo para além do que existe.

sábado, 10 de setembro de 2016

O Saber Perder(-me)


Perdi. Como é viver? Como é sentir que o mundo é o lugar a que se pertence?
Perdi as palavras para poder dizer que gosto da vida, perdi o gosto de acordar pelas manhãs quentes de verão. Baixo a cabeça, acho que perdi o mapa pelo qual me guiei até então, o então que perdi palavras para explicar, o então que me deixou perdido. Perdi a rota e estou perdido para saber o quão perdido estou.
Perdi-me.

sexta-feira, 2 de setembro de 2016

Farol de Esperança


Com o passar dos anos, as responsabilidades acumulam-se em ondas enormes que fazem balançar esta pequena embarcação. Cada escolha, cada decisão, é um rodar de leme, é mais uma onda rasgada pela proa. Só tens de aguentar os salpicos e seguir, continuar a navegar até ao abismo do inevitável.
Ao teu futuro, não lhe dês um barco salva-vidas contra as marés, dá-lhe antes uma âncora e liga ao teu farol. É que o barco vira, mas a âncora de confiança vai manter-te lá, na tua alma, de pé fincado. E, um farol de crença irá guiar-te sempre a casa, a porto seguro.