terça-feira, 28 de janeiro de 2025

Terra Infértil


Hás de ficar solteira toda a vida. O teu estado nunca muda. Deixemo-nos ficar no atrasado emocional. E quando olhares para trás, quando a vida já te tiver passado pelos olhos e pelo corpo agora amadurecido e velho, sentirás o coração amarrotar de vazio, vazio que semeaste como quem espera colher trigo dourado. E quando olhares para trás perceberás que perdeste corações cheios, a transbordar de amor. E será tarde, muito tarde porque nada cresce em terra seca. E quando eu olhar para trás, quando a vida já me tiver trazido uma grande árvore de fruto, olharei para ti e dir-te-ei ainda com bocados de espinhos cravados na alma, que eu era esse coração a transbordar de chamamentos. O mesmo coração que assassinaste no rodopio desse vazio infértil. O teu estado nunca muda, e, quando mudar, vai ser tarde, muito tarde, e já terás perdido cascatas de oportunidades para encher a tua vida.

sábado, 18 de janeiro de 2025

Identidades


Eu não sei quem sou. Não sei quem sou, porque não sei quem são vocês. Olham-me com desdém só porque a minha mentalidade não colabora com as vossas. Se a minha pede batatas, a vossa pede massa. Se a minha quer água, a vossa quer vinho. Se a minha quer verdade, a vossa quer mentira. Ninguém é o que julga ser nem ninguém é o que os outros dizem. Então o que somos? Nada, limitamo-nos a achar-nos algo, mas nunca somos nada em concreto. Ninguém nos conhece, nem nós conhecemos ninguém.
Queria voltar a ser criança. Onde eu era o que era e sabia que era, e todos sabiam que eu era assim.

quarta-feira, 8 de janeiro de 2025

Amores de Uma Vida


O amor das nossas vidas vem sempre para ficar. Desarruma tudo, rouba tudo. O amor das nossas vidas é um filho da mãe dos piores e deixa-nos sempre de joelhos no chão suado, e olheiras de noites passadas em branco. O amor das nossas vidas é mesmo assim e não pode ser de outra forma porque, se o fosse, não o era. Pensamos nele. Vemos o seu sorriso que não é dirigido a nós, que disfarça palavras entaladas e lágrimas sufocadas, sorrisos de circunstância, gestos que sobravam daqueles que nos acompanhavam. E há um fosso, uma muralha. Não podemos ouvir, não podemos tocar. E o nosso coração torna a descompassar, a gritar e a rasgar veias e artérias. E vemo-lo ir, como sempre, porque não é feito para ficar, para permanecer. Abandona o alcance dos nossos olhos. O nosso querer é transcendente, desumano, irracional, é proibido e insano, alcoólico e irreversível. Os amores das nossas vidas, se não nos servem, deviam eclipsar-se do nosso coração e não ficar no lugar das memórias vivas. O amor da tua vida não sou eu. O amor da minha vida não devias ser tu. O amor das vossas vidas não devia ser como o meu.