segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

Clandestino


Vi-te passar no outro dia pela rua perto daquela onde te conheci. O teu rosto era pobre, como se em facas mergulhado. O teu olhar cinzento, como nunca antes te o vira. Tua voz rouca, alguém te mordera a garganta. Teu andar podre, caída em desastre cambaleavas. Choravas. Ou fingias chorar, que não cheguei a ver-te as lágrimas. Levavas na mão três cartas sem envelope e uma flor murcha e estavas a ouvir melodias deprimentes.
Sentas-te na escada do prédio, e olhaste-me como quem espera, sorriste e deixaste cair a cabeça para o lado. Aproximei-me, sem me lembrar do passado, aproximei-me por inércia, instinto. E tu olhavas um ponto fixo no lugar onde eu estava há pouco, com a mesma sensação de espera. Estava agora apenas a dois metros de ti e detive-me. Senti de novo todo aquele fulgor que nos unira, todo o sonho que uma mentira tua apagara tempos antes. Ouvi gritar o teu nome dentro do peito, dei mais um passo.
Abriu-se a porta do prédio e tu, sobressaltada, olhaste para trás. Era ele, o outro, aquele que agora caminhava a minha rota, entre os beijos dos teus braços. Afastei-me e uma das tuas lágrimas correu todo o meu rosto.
Felizmente há dois caminhos, entre os beijos dos teus braços! Nosso amor será clandestino!

sábado, 20 de dezembro de 2025

Síndrome da Porta Fechada


E se eu pudesse ter esquecido todos os momentos em que justifiquei a minha loucura com amor, desaparecido com a mala fechada, ter ouvido a sinfonia certa sentado num sofá velho ao despertar do crepúsculo. Se eu pudesse ter esperado pelo fim da conversa, mantido a porta longe dos meus dedos ansiosos para a abrir. Queria eternizar aquele momento. E hoje só digo isto.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2025

Body, Mind & Soul


Gosto de ti porque talvez possas vir a ser a minha alma gémea, não sendo. Pondo isto de outros modos: poderás ser uma das minhas metades, onde a simetria falha. Gosto disso. Não seríamos um. Quando as pessoas se fundem, parte delas é suprimida para entrarem em modo de compatibilidade. Nós não deveríamos. Nós deveríamos resistir à unificação. E poderás ir-me completando, ao mesmo tempo que deixas o espaço ideal para que me complete a mim mesmo.

domingo, 30 de novembro de 2025

Pão com Manteiga


Disseram-me em tempos que não gosto de coisas demasiado fáceis. Lembrei-me disso hoje de manhã, enquanto lutava pelo meu habitual pequeno almoço, e fui comprimido contra corpos desconhecidos que se colavam a mim sem pudor nem licença. Não me importei, era só a guerra diária. Não me importei até me sentir sozinho lá no meio, música alta nos dois ouvidos e corpo apertado contra outros desconhecidos. Nenhum daqueles era o teu. E foi aí que me senti incomodado. Disseram-me que não gosto de coisas fáceis. Deve ser por isso que gosto de ti.

quarta-feira, 19 de novembro de 2025

A Angústia do Perceptor Solitário


Sou o único a perceber, ou o único ignorante? Sou o único a ver, ou o único cego? Esta sensação não se cria, não se manipula, limita-se a acontecer! Digam-me, minha gente, quando é que a inferioridade deixou de se sentir pelos motivos certos. Porquê, porquê a diferença ou a semelhança? A porta fechou-se e eu não sei dançar. E, meus caros, entendam! Não é escritor aquele que pensa até escrever, mas aquele que vê e escreve sem querer.

sábado, 8 de novembro de 2025

The Last Dance


O som manifestava-se descontrolado pela rua, extasiando todos à minha volta. A euforia tomava conta da multidão, aos gritos e aos saltos, o êxtase das fortes batidas penetravam fundo na alma, levando-nos a entrar naquela onde de loucura sem fim. Uma vez por outra, levavas a tua mão à minha cara, sussurrando aos meus ouvidos palavras por que esperava há muito tempo ouvir. Os sentidos estavam alerta e a loucura do ambiente que reinava à nossa volta furtava-nos a racionalidade, deixando-nos seguir o que o inconsciente ditava. Por entre a escuridão e as luzes que efusivamente piscavam ao som de cada batida, aproveitavas para me tocar, assim como eu a ti, deixando à solta a química que sempre explodiu entre nós. Desenfreadamente, dançávamos, pulávamos e gritávamos de alegria, deixando que cada gota de suor possuísse cada detalhe da nossa pele. Era uma da manhã, as luzes acendem-se e o palco agradece os aplausos. Atingi a felicidade naquele momento. E não foi um sonho. Foi a última dança.

segunda-feira, 27 de outubro de 2025

Starving


Hoje vou falar-te ao ouvido, devagar, com a melhor dicção que conseguir e apertar muito os nós dos dedos entre as mãos nervosas. Estou frente a ti como o menino que, em tempos, não me deixaram ser. Doem-me os olhos. Ontem não dormi. Já passei por isto e sei o buraco em que me meto. O amor que me dás é um eco da minha própria voz. Não há nada teu. Não há marcas para além do teu cheiro que aprendi a gostar, muito diferente das perfumarias caras. É cheiro teu, emana de ti, sem etiqueta, sem preço, cuja amostra conservo na saliva que me secaste. És a gruta escura que me faz resvalar no piso que não vejo, que me faz cair e ferir os joelhos. Dizem-me para fugir, para correr a encosta que me levará a casa são e salvo. Mas eles não percebem que quero perder-me contigo, resvalar no piso incerto e ferir muito para além dos joelhos. Acusam-me de insensatez, de rebeldia, apelam ao meu bom senso. Contudo, eu já perdi a consciência há muito tempo, principalmente quando deixei a minha estabilidade mórbida por causa do teu fascínio. Sei lá se te quero, se te gosto, se te amo. Perde-te de vez comigo no mar alto, no fim do mundo, no meio de flores, de arco-íris, de chuva. Não tragas mochila, não tragas comida. Alimenta-te de mim, sente o que é, verdadeiramente, ter fome de alguém na sua plenitude.

quarta-feira, 15 de outubro de 2025

Brisas


Sente-me traçar a tua pele repleta de desejos infindáveis como uma pétala suave trazida pelo vento. Mordo-te o pescoço num só toque, deslizo em sensações molhadas pelo teu peito, cerco-te a cintura em carícias e deixo-me cair pelo teu corpo, mais um pouco, guiado pelo meu último desejo. Quero sentir a tua total suavidade. Vai desejando senti-la, enquanto eu, mais uma vez, te vou traçando o corpo calorosamente. O vento que a ti me trouxe, de ti, espero nunca me levar.

sexta-feira, 3 de outubro de 2025

Opressão

 
Eu não pertenço aqui. As coisas escapam por entre as minhas mãos, sinto o silêncio, o ambiente que consome tudo à minha volta.
As casas renegam dignidade e tudo o que tenho aqui é tudo o que foge de mim, tenho aquele lugar que me espera tal qual como o deixei, as ruas no seu lugar, o cheiro característico, os sorrisos, as sombras.
Não, eu não pertenço aqui, e se por acaso a minha alma aqui morrer, vai ser lá que eu vou ter um fim.

quarta-feira, 24 de setembro de 2025

Whispers


Dificilmente se explica. Desconheço-me desde que nasci e sou praticamente um fantasma, sem interesse. Gostava de me ter reconhecido há mais tempo, mas só não vê quem não quer e certamente me ceguei com grande impacto. Saio de casa à pressa e vou ao supermercado comprar pão, alimento para sobreviver mais uma tarde. Sou sempre eu, e mais alguém que não se vê, a quem apeteceu umas bolachas ou água. Sussurram-me ao ouvido que fujo das mãos, que vou sempre mais à frente no caminho. Em avanço estive e foi sempre um defeito meu. Mas está sempre tudo bem para mim, com esta incrível estabilidade que aguenta o meu interior instável. Nem eu sei a sorte que tenho, nem eu sei. E isto tudo porque sou criança. E as crianças não são de complicações. Se não fosse isso, não me aguentaria.

domingo, 14 de setembro de 2025

Tinta Esbatida


Hoje saciei a vontade de há muito. Fui desenhando, entre soluços, pequenas palavras, construindo frases repletas de pudor. Cheguei até a ter receio de reler tudo o que tinha escrito, talvez tenha sido essa a razão porque não o fiz. Despedi-me de ti, não da maneira mais pertinente porque me mostrei fraco e, enquanto os meus dedos te desenhavam eu olhava a rua, estava a chover. Abri a gasta porta de madeira e descalço, com a carta de despedida na mão, fui sentir cada gota de água deslizar sobre a minha pele demasiado quente. As palavras entrelaçavam-se umas com as outras, diluídas pela chuva. Peguei num pouco de tinta dessa inútil carta e deixei que ela se incorporasse na minha face molhada. Nunca me vou conseguir despedir de ti.

quinta-feira, 4 de setembro de 2025

Mudança de Tom


Hoje começo a emitir noutra frequência. Vou mudar por inteiro a temática do meu programa que durante este ano falou do que não interessava, falou daquilo em que nem se devia pensar, daquilo que já estava morto mesmo antes de nascer. Não me venham falar de erros e esperanças de mudança, já chega de felicidades invisíveis, de proteger aquilo que nos mata, de sermos aquilo que nunca iremos ser. Não se nota que temos o mundo contra nós? Não se vê que temos uma muralha de pessoas e factos contra nós? Se não vêem, vejo eu, cada vez mais perto de mim, aproximando-se sem dó nem piedade e desvendando a minha fragilidade - tu.

domingo, 24 de agosto de 2025

Safe, For Now


Sim, está tudo bem. Um sorriso aqui, um aceno de mão ali, uma gargalhada vazia acolá. Tudo no seu sítio, a vida a correr bem. E quem olhar de longe para mim, no meio da multidão, havia de dizer que tinha graça, reconhecer que não me destacava por nada em especial. Sim, um rapaz normal, com sorriso rasgado e vida feliz. E eu, se os ouvisse, havia de dizer que tenho fingido estados de ânimo positivos, que para mim tem sido sempre inverno. Os meus olhos sempre conheceram a água. Mas não chorei. Inspirei fundo, liguei a música e olhei fixamente a luz. E resultou. Nem pinga. Ainda estou a salvo. A tua ausência mata e eu não sabia. As recordações passam em câmara lenta pelos vidros das montras de rua, pelas partituras que tenho que enfrentar, pelos espelhos que antes refletiam a nossa imagem. A tua ausência mata e eu não sabia. Eu não sabia quando te disse que sim.

quinta-feira, 14 de agosto de 2025

Magicar Sorrisos


Sabes, tenho saudades daqueles sorrisos que sabias desenhar no meu rosto. E de quando, entre troca de olhares sérios, me fazias cócegas, sabendo que eu detestava. Eu ria-me e prendia as tuas mãos. Quando finalmente desistias, levavas os teus dedos à minha boca e, com eles, magicavas sorrisos nos meus lábios, aqueles sorrisos que faziam soltar de dentro de mim faixas de raios e de luz que inundavam o meu coração de algo que não se explica por palavras. De algo mais precioso que qualquer pedra preciosa, que qualquer outra coisa existente neste mundo. Engraçado como este gesto pode ser universal e praticado da mesma maneira por tantas outras pessoas especiais para nós, mas haverá sempre alguém que o fará melhor, de maneira mais tocante, e especialmente, de forma a que seja completamente inesquecível. É dos teus desenhos de sorrisos no meu rosto que eu preciso todas as manhãs quando acordo.

terça-feira, 5 de agosto de 2025

Sabor a Cereja


Nos dias de apatia, lembra-te dum entrelaço. Nos dias de nostalgia, lembra-te das vitórias. Nos dias de chuva, lembra-te de um sorriso. Na totalidade, tudo são momentos e é disso que vivemos. Ao saboreares cerejas, desfrutas do momento. Ao veres o horizonte, desfrutas do momento. Fica, porque quando partires, já não vai ser o mesmo quando voltares. Arde de ti para mim, a qualquer hora da madrugada. Pode ser escasso o nosso tempo, mas proveitoso sempre será.

sábado, 26 de julho de 2025

Passion Red


Conta as noites de desespero em que me inspiras o sonho, conta os dias, meus, feitos para ti. Conta as palavras que te digo e, que talvez nunca ninguém te disse de forma tão pura. Conta, ainda, quantas vezes bate o meu coração. Imagina-te de olhos fechados enquanto eu falo para ti em melodia serena. Se o teu toque e o teu perfume me são desconhecidos, acredita, hoje, que amanhã o meu perfume estará na tua pele.

quarta-feira, 16 de julho de 2025

Cegueira Imprudente


Queria dizer-te alguma coisa, ir ter contigo ou ligar-te apenas, mas depois do que me disseste tudo parece insuficiente. No início dava voltas à cabeça, ria dos preparativos que me fazia para te ver, sonhava bem alto, tão alto que se ouvia quando passava na rua. Hoje tenho medo de pensar em ti. Trazes imagens que não desejo. Olho para trás na mesma rua onde já sonhei alto e aperto os olhos de dor. Enganei-me. Fui cego. Fui imprudente. Tenho pena de não poder reivindicar nada, de não haver nada para te atirar à cara. Afinal, hoje em dia, não há confiança e as pessoas só se respeitam se houverem pré-tratos e nós nunca tivemos um, nós nunca verbalizamos coisa nenhuma. Eu ainda sou daqueles que acredita nos sentimentos como o bem mais precioso, como o elo mais fraco e o alvo mais fácil de atingir. E eu abri tanto os meus para ti. Queria dizer-te alguma coisa, talvez por ainda te querer, por não sentir raiva nem nuvens negras no peito magoado, mas depois do que passamos tudo me parece insuficiente. Quem me assusta és tu por seres tão cega, embora seja a minha cegueira que me desespera. Eu até que era bom no escuro. Agora percebo porque te encontrava aí. Abriste as persianas e deixaste o sol entrar tão bruscamente que feri a visão turva. Vi tão claramente que ainda hoje não durmo com medo de acordar com claridades como aquela. Queria dizer-te alguma coisa, mas depois da persiana que abriste não tenho voz. Percebo que o erro é teu, que a cegueira é minha e que não posso correr porque não vejo. Volta e concerta ou quebra de vez.

domingo, 6 de julho de 2025

Seis


Só saber que me abraças com a força do Universo apenas em meia dúzia de segundos, deixa o meu peito sobressaltado de emoções e a palpitar desejos. Adoro que estejas a começar a descobrir o poder das palavras na tua vida. Desenhas-me simples sorrisos na face e agora resta-me esperar, que o tempo se encarregue de me continuar a trazer o verdadeiro significado do amor ao meu peito. Dança coração! Dança ao sabor das melodias de sentimentos brutos e puros. Estarei aqui para te carregar nos braços e ficares com o meu colo.

sexta-feira, 27 de junho de 2025

Pedras Negras


Disseste que juntos chegaríamos aonde quiséssemos, que nunca haveria pedras negras que nos pudessem separar. Dei-te a mão, que prometeste nunca largar, e fomos ao infinito. Nunca nos deixámos cair um ao outro, acreditei no teu olhar e na verdade que nos unia. Nada nos separaria, estava prometido.
Mas em silêncio, no breu da noite, largaste-me a mão. Falámos e prometeste que voltavas, mas nunca o fizeste. Se é de grandes esforços que nascemos, porque não nutrir esforço em pequenos gestos? Onde está a tua mão? Onde está o teu sorriso e o teu olhar? Onde estás?

terça-feira, 17 de junho de 2025

Fogo Preso


Olhava a noite, feito barata tonta em casa alheia com a família reunida a festejar uma festa qualquer. Vi balões suspensos por uma chama que eu também já tive, uma chama que tu me deste um dia e que, mesmo um pouco extinta, ainda se conserva no meu peito. Vocês sabem lá o que é rir com o coração ferido, forjar estados de espírito agradáveis quando as lágrimas doem ao sair. Tu lá sabes o que me fizeste, sabes lá o que é rir quando as lágrimas secam e não caem. Não, eu não queria festa. Não, não estava com disposição. Apreciei um fogo preso, próximo do sítio onde me encontrava. Os meus olhos não pestanejaram em resposta às cores e efeitos impossíveis que via formarem-se diante de mim. A noite caía quente, acompanhada de uma brisa floral. O fogo não cessava. Estive ali muito tempo, enfeitiçado por cores impossíveis, tal e qual o nosso amor, pois também ele é colorido e impossível. És fogo de artifício que me rebenta nas mãos.

sábado, 7 de junho de 2025

Velhos Amores


Às vezes, quando me falas, sinto-me a diluir. Sento-me no teu colo e desmancho-me no teu peito, sem recear a nada. Sei que sustentarás a minha vida nos teus braços. Sinto a força do teu afeto suportar-me o coração. a tua delicadeza a queimar-me a pele. E os meus olhos a perderem-se nos teus.

domingo, 25 de maio de 2025

Perdidos & Achados


O teu olhar, profundo, completa o meu, é colorido o imaginário do teu sorriso. És tu quem, secretamente, pinta de todas as cores os esboços dos meus sonhos. Encontrei-te uma noite, como por acaso, e tornaste-te o meu único refúgio. Há um olhar qualquer, sem ser o teu, a espreitar-me do fundo dos teus olhos. Há uma voz qualquer, não é a tua, que grita da tua garganta. Há um perfume qualquer, que não o teu, que emana do teu corpo. Há um sorriso qualquer, sem ser o teu, que enche a tua face. Como se tu tivesses mudado, e eu já não fosse importante. Tenho medo de acordar e estares perdida nos braços de outro. Tenho medo de olhar para o espelho e não te ver. Já não suporto a tua ausência. Se me procuras, porque insistes em não me encontrar?

sexta-feira, 16 de maio de 2025

Esticar a Corda


Tenho saudades tuas e o seu reconhecimento devia ser suficiente para me sentir mais leve. Sinto saudades das tuas mãos na minha cintura, da tua boca na minha, dos teus olhos nos meus. Sinto saudades de te abarcar em mim, de sentir a tua visão trespassar-me o corpo dormente do teu toque confuso. Sinto saudades da música da tua voz. E pode parecer limitado, pode parecer insípido, mas tenho saudades tuas, daquelas mais puras, daquelas mais insuportáveis. É tarde e não te espero. Sei que não vens. Tenho saudades tuas e tu não sabes o que dizer. Tu, que tão boa és com as palavras. Eu, que tantas vezes meu pus à tua escuta, esperando que alguma vírgula tua me caísse nas mãos molhadas da água que deixo correr pelo meu corpo nervoso do teu. É tarde e penso em ti, conformado com a tua ausência. Sabia que não virias, só não sei quando vens. E vais facilitando a minha saudade, esticando a corda do amor impossível de abdicar, navegando na certeza de que estarei sempre aqui. Talvez assim fique para sempre, mas um dia a corda rompe com o passar dos dias, uma dia a saudade mata de vez e não deixa nada mais para trás a não ser um coração frio de decomposição. Ainda tenho saudades tuas, ainda estou apaixonado, ainda sou capaz de esticar a corda. Não demores muito. A saudade de mim é também muito grande.

quarta-feira, 7 de maio de 2025

Calor Humano


Tocas-me no braço e apareces por magia, como se de rotina se tratasse. Os meus olhos transformam-se em pérolas e a voz sucumbe de espanto, mentalizado de uma hora longa de chegada. Respiro fundo e esboço um sorriso. Levanto-me, dou três voltas e disparo com perguntas. Acalmas-me, repousando a cabeça no meu ombro. Encaminho-te para algum lado onde se veja o céu, escuro, carregado de raiva. É assim que me sinto, mas, o teu palpitar de mãos é sempre uma bênção. Queixas-te de como está calor e eu digo que sufoco com a humidade, um ambiente tropical instala-se em mim. Desvias-me da janela e levas-me até às profundezas, onde o frio apaziguador habita. Seria a hora certa de me dizeres que tens saudades, mas não. Em vez disso, agarras-me as mãos e perguntas como vamos ultrapassar isto que me mói. Enlaças-te em mim com perguntas que me clarificam e despertas-me senso racional. A partir daqui concordo com cada palavra tua, e nem o céu consegue superar a beleza dos teus olhos que encravam os meus, nem a honrada maneira de me apoiar. A tua estabilidade tem sempre hora certa.

segunda-feira, 28 de abril de 2025

Cidades Divergentes


Sei que fui eu quem te viu primeiro, quem primeiro especulou acerca daquela rapariga tão aparentemente normal. E estava consumado, e toda a loiça partiu. Mas tu nunca foste normal e eu nunca me fiquei pela especulação. Fala-se em crise mas nunca vi tanta procura. Creio que há mais crises de coração, menos tempo para amar. Talvez seja essa a tua doença, a tua crise existencial que não conseguimos ultrapassar. Talvez seja por isso que esta cidade nunca proporcionou o nosso encontro. A cidade não ama nem tem tempo para isso. E eu fui contra o imposto, contra o estipulado e quando finalmente o destino inevitável nos juntou eu amei-te inconscientemente. Amei-te muito e não sabia, porque de onde vinha não havia tempo para amar e eu, brincava aos corações feridos há demasiado tempo. Vejo um ponto de luz por cima das cabeças que formam a multidão cinzenta. Sorrio disfarçadamente, como que lendo nesse ponto de luz a tua imagem. És tu quem caminha para mim, iluminando corações perdidos e mal amados. Não, não sou normal, a nossa história não é comum. É que nós, mal ou bem, temos a capacidade de amar, e o meu corpo é dado ao som do teu suspiro apaixonado.

sexta-feira, 18 de abril de 2025

Belo Coração


E finalmente abri a janela que nos separava os rostos mudados do tempo arrastado e pude sentir a tua respiração nos meus olhos. Que bom foi afastar poeiras, nascer de novo. Olha para o meu sorriso e vê a diferença. Não vai ser fácil, porque nada é fácil contigo e eu de difícil tenho muito. Mas é essa tua complexidade que me abisma, é esta diferença que me rasga o caminho até ti, até este turbilhão de contentamento que me faz ser em ti. Bebo-te a sabedoria. Todas as horas contigo são poucas e eu, mesmo rendido de cansaço, não abdicaria do teu corpo, feito à minha medida. Tens-me na mão e não sabes, porque eu de fácil tenho pouco e não ultrajo os meus valores. Mas tens aí, nessas mãos que fazem magia em mim, toneladas de um sentimento ao qual não quero dar um nome. Controlas o meu frenesim natural, a minha energia inesgotável. Sinto que me injetas calmantes nas veias assim que te passeias por mim. Tens cura para muita coisa, para doenças que eu sei ter. É belo esse gesto apertado que me fazes tantas vezes sem ninguém ver, surpreendendo a tua natureza selvagem. Um gesto apenas, tão simples e vulgarizado mas que em mim faz tatuagens definitivas. É belo o meu coração por ti.

terça-feira, 8 de abril de 2025

Afastar as Palavras


Afastar-me das palavras é bom de vez em quando. Gosto muito delas, como se fossem gelado e eu um menino pequeno de estômago vazio. Fazem-me falta, são como um vício. Porém, lembram-me muito de ti quando eu já não penso noutra coisa o resto dos minutos em que delas me afasto. Obrigam-me a racionalizar-te, a analisar todos os teus impulsos, todas as tuas atitudes. Obrigam-me a abrir os olhos e a perceber, verdadeiramente, o significado de todas as palavras que tu, tão boa com elas, escasseias em mim, Obrigam-me a perceber que te vais embora, que sou pouco para ti e que a nossa felicidade e momentos juntos são efémeros, fugazes e perto do fim da validade. Por isso, afastar-me das palavras é bom de vez em quando. E quando me afasto, quando me perco da razão, quando não ouço as vozes interiores e exteriores, vejo-te e sinto-te no fundo de mim, mergulhando em espaços que eu não conheço mas que tu, agilmente, chegas. E entras como se a casa fosse tua, como se as ruínas que me foram feitas ao longo dos tempos fossem labirintos indolores. É maravilhoso estar contigo esquecendo que o faço erradamente, cavando o meu próprio buraco que me comerá vivo e ao qual não oferecerei resistência. Mas maravilhoso é o teu peito e adotei, ilegalmente, o teu pescoço. Tu és maravilhosa mesmo que só aos meus olhos. Eles chegam para ti ainda que a alma seja demasiado pequena e o corpo demasiado puro.

sexta-feira, 28 de março de 2025

Sleeping Pills


Gostava de conseguir dormir. De descansar. De um bom par de horas esticado. Mas eu agora não durmo. Confesso que via o sono como um escape, como um analgésico. Fugia do exterior, fugia de ti. Descia persianas, fechava portas, escondia-me por baixo de lençóis antigos. Antigo ia ficando eu, cada vez com mais marcas na alma semeada de hematomas que não passam. Há dores que o tempo não leva, amores que o tempo não apaga. Eu não te quero apagar. Sou tão fraco. Tinha-me como mais duro nestas coisas, como mais decidido, como mais fiel a mim mesmo. Onde me meti? O que raio fizeste tu comigo? Pensava que a boca não me trairia. Digo-o com confiança. Digo-te a ti. E tu rasgas esse véu que tinha decidido pôr entre nós, retalhado,  que tinha demorado anos a costurar. E o coração balança. Nunca senti o chão fugir dos pés e digo-te: és a melhor a iniciar-me nestas andanças. Não tenho raiva, não tenho gritos, não tenho nada de mal para ti em mim. Só quilómetros e quilómetros de vazio, perdição, desilusão comigo mesmo. O sono não ajuda. O sono faz-me sonhar contigo e em como te quero lá. Dissertações de utopias a dois. Quero que o sono seja essa distância de segurança entre os nossos corpos e as nossas mentes. Sou um vulcão de desalento em erupção, não posso dormir. Mas pelo menos vou tentar não fazer barulho.

terça-feira, 18 de março de 2025

Matar a Saudade


Saudade. A eterna ausência. Arrastam-se cardos, morrem espinhos, e mais uma volta aos ponteiros. Cheiro a incenso e a vazio. Isto de quem entra e se aconchega num recanto, deixando a sua fragrância entre os lençóis que, após a despedida, se mostram estrangeiros. Extingue-se a química, o toque, o beijo, cada milímetro dessa pela que eu tanto quero sentir. Arderam as palavras e da combustão resulta, nada mais nada menos, que apenas saudade. Inspiro arrependimento, por ter deixado em corpo teu, apenas memórias e remorsos. A saudade é a pior companhia que se pode ter. Mas eu expiro longe, ainda, a esperança. A saudade, meu amor, também mata. Mas eu quero viver para sempre, contigo.

sábado, 8 de março de 2025

Chão Irregular


Dou por mim quieto, sentado no chão frio da casa pouco iluminada. Dou por mim parado no tempo, recordando-te em cada esquina deste espaço. Furaste a minha intimidade, o meu lugar por direito. Devias ter feito por ficar. Não fizeste e, por isso, fecho o portão de entrada atrás de ti e vejo-te desaparecer na escuridão cerrada. Carrego o teu peso comigo, não tenho vergonha de admitir que se eventualmente estiveres fora do meu caminho, nunca estarás fora do meu coração. Ficaste calada, mas por pouco tempo, e o que me dizes chega-me com uma suavidade invulgar. Mesmo que fales verdade, eu quero atos, provas, factos. Só lido com o palpável e o amor também o é. O amor não são palavras e nem nessas tu és boa comigo. Amor nunca foi sinónimo de ímpar para mim. No amor as convicções são poucas e só são permitidas aquelas que nos permitem proteger. Como as minhas.

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2025

Questões de Genética


Tocam-se os rumos das nossas mãos, cruzam-se as nossas vidas e acreditamos. O meu braço no teu ombro, a vida inteira. Não estava destinado, nós é que escolhemos que fosse assim. Sonhamos juntos, que há um lugar só nosso para sonharmos, mesmo que acordados.
Todos fazemos barbaridades por amor. Nos genes humanos vem impressa uma capacidade de auto preservação que faz com que tenhamos o sangue frio suficiente de passar por cima de tudo e todos quando se tem em vista o destino final da felicidade. Eu não sou diferente, por muito que me apontem o dedo a culpa não é minha. Tenho esta vontade tão egocêntrica de o querer para mim, só para mim e não a consigo contrariar.
Eventualmente, deve haver um limite para isto, não sei até que ponto consigo ser uma má pessoa.

terça-feira, 18 de fevereiro de 2025

Sorriso Amarelo


Olha, queres ver? Queres ver o que o tempo nos fez? O que as horas escuras e gastas nos fizeram? Até mesmo os sorrisos perdidos, falsos e vazios, até mesmo o medo implícito nos dias que não passaram, é que até mesmo o amor que juraste ter, uma vez, para ti tudo era mentira, era simples esquecer, esquecer os espaços que pisámos juntos, e para mim era quase impossível nem sequer revê-los. Melhor, eu nem sequer sei o que para ti é verdade. Por isso, tu continuavas aquilo a que chamavas vida, seguias sempre em frente. Hoje sabes onde estás, no fundo do mais fundo, assim, eternamente. Para ti ainda tenho um sorriso, aquele que guardei, não sei se na alma ou no coração, mas é para ti, um dia, tu sabes, entregar-to-ei em mão.

sábado, 8 de fevereiro de 2025

Gravidade (Zero)


Dizer que te conheço no escuro, no meio da multidão, é grave. Eu nunca me vou esquecer. Sei como te apoias no pé direito de braços cruzados, sei as formas do teu rosto quando sorris e de como levantas o olhar por cima da minha cabeça quando o fazes. Sei do charme que te transpira do corpo. Sei de como te sirvo para as horas vagas, sei do teu andar e do choque da tua boca, da frieza das tuas mãos. Sei dessa frustração emocional, que encarnas como se a vida fosse um jogo, como se eu fosse uma vítima. Dizer que te conheço os tiques e manias é grave. Que te descubro de olhos fechados, que ouço aos meus ouvidos a música que fazes com a voz desumana. Nunca me vou esquecer. E, às vezes, ainda me deito a pensar que só gostava que aprendesses a lembrar-me.

terça-feira, 28 de janeiro de 2025

Terra Infértil


Hás de ficar solteira toda a vida. O teu estado nunca muda. Deixemo-nos ficar no atrasado emocional. E quando olhares para trás, quando a vida já te tiver passado pelos olhos e pelo corpo agora amadurecido e velho, sentirás o coração amarrotar de vazio, vazio que semeaste como quem espera colher trigo dourado. E quando olhares para trás perceberás que perdeste corações cheios, a transbordar de amor. E será tarde, muito tarde porque nada cresce em terra seca. E quando eu olhar para trás, quando a vida já me tiver trazido uma grande árvore de fruto, olharei para ti e dir-te-ei ainda com bocados de espinhos cravados na alma, que eu era esse coração a transbordar de chamamentos. O mesmo coração que assassinaste no rodopio desse vazio infértil. O teu estado nunca muda, e, quando mudar, vai ser tarde, muito tarde, e já terás perdido cascatas de oportunidades para encher a tua vida.

sábado, 18 de janeiro de 2025

Identidades


Eu não sei quem sou. Não sei quem sou, porque não sei quem são vocês. Olham-me com desdém só porque a minha mentalidade não colabora com as vossas. Se a minha pede batatas, a vossa pede massa. Se a minha quer água, a vossa quer vinho. Se a minha quer verdade, a vossa quer mentira. Ninguém é o que julga ser nem ninguém é o que os outros dizem. Então o que somos? Nada, limitamo-nos a achar-nos algo, mas nunca somos nada em concreto. Ninguém nos conhece, nem nós conhecemos ninguém.
Queria voltar a ser criança. Onde eu era o que era e sabia que era, e todos sabiam que eu era assim.

quarta-feira, 8 de janeiro de 2025

Amores de Uma Vida


O amor das nossas vidas vem sempre para ficar. Desarruma tudo, rouba tudo. O amor das nossas vidas é um filho da mãe dos piores e deixa-nos sempre de joelhos no chão suado, e olheiras de noites passadas em branco. O amor das nossas vidas é mesmo assim e não pode ser de outra forma porque, se o fosse, não o era. Pensamos nele. Vemos o seu sorriso que não é dirigido a nós, que disfarça palavras entaladas e lágrimas sufocadas, sorrisos de circunstância, gestos que sobravam daqueles que nos acompanhavam. E há um fosso, uma muralha. Não podemos ouvir, não podemos tocar. E o nosso coração torna a descompassar, a gritar e a rasgar veias e artérias. E vemo-lo ir, como sempre, porque não é feito para ficar, para permanecer. Abandona o alcance dos nossos olhos. O nosso querer é transcendente, desumano, irracional, é proibido e insano, alcoólico e irreversível. Os amores das nossas vidas, se não nos servem, deviam eclipsar-se do nosso coração e não ficar no lugar das memórias vivas. O amor da tua vida não sou eu. O amor da minha vida não devias ser tu. O amor das vossas vidas não devia ser como o meu.