quinta-feira, 28 de março de 2024

Fronteiras


Afinal o que fazes tu enquanto eu vejo museus, enquanto piso ruas que não as minhas e amo camas que não as tuas? Afinal o que fazes tu enquanto me curo, enquanto faço malas e carrego baterias para recuar quilómetros de saudades que estupidamente te tenho? Afinal, o que fazes tu enquanto falo noutra língua, enquanto caminho rodeado de monumentos que me obstruem a visão como que compreendendo a fronteira que nos separa, os países que nos acolhem? Tudo. Tudo aquilo que fazias quando te metias no carro de bancos largos e as ruas eram pacatas e corriqueiras. Tudo aquilo que fazias quando falávamos na mesma língua e eu pensava que não precisava de viagens, de malas feitas à porta. Afinal tu sempre fizeste tudo. Quer eu visse museus ou me deitasse contigo. E aí é que está a fronteira.

segunda-feira, 18 de março de 2024

The First One


Quantas oportunidades desperdiçamos? Quantas vezes não seguimos em frente porque nos preocupamos demais com o que está ao nosso redor? E depois, quantas vezes nos arrependemos de não o ter feito? Quantas vezes não fizemos já estas perguntas? De pouco ou nada adiantou. O que perdemos dificilmente será recuperado. Temos pena. Lamentamos o que deixámos para trás e não encontramos um sorriso no presente porque nele falta o que recusámos no passado. E vivemos o agora, cruzando-nos com o antes a todo o momento, moendo o coração e a cabeça, desejando ter pronunciado o sim em prol do não. Perdemos sorrisos. Desperdiçamos momentos. De que vale afinal?

sexta-feira, 8 de março de 2024

Sete Chaves


Fechei-te numa gaveta. Arrumei-te. Disse-te até amanhã e dei a volta à chave. Tu não tinhas forças para o fazer. Ou não querias. Agradava-te o facto de eu ter a gaveta aberta para que pudesses sair quando quisesses, mesmo que eu não o quisesse. Então fechei-te. Não soubeste merecer essa vida que te dei, essa abertura da minha gaveta. E, numa das vezes em que saíste, quase deitavas a gaveta ao chão e a fazias em pedaços, tal era a tua força. Por isso tive de te fechar. Desculpa. Há dias em que é melhor assim. Fechar-te. Dar a volta à chave e dizer até amanhã.