segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

Clandestino


Vi-te passar no outro dia pela rua perto daquela onde te conheci. O teu rosto era pobre, como se em facas mergulhado. O teu olhar cinzento, como nunca antes te o vira. Tua voz rouca, alguém te mordera a garganta. Teu andar podre, caída em desastre cambaleavas. Choravas. Ou fingias chorar, que não cheguei a ver-te as lágrimas. Levavas na mão três cartas sem envelope e uma flor murcha e estavas a ouvir melodias deprimentes.
Sentas-te na escada do prédio, e olhaste-me como quem espera, sorriste e deixaste cair a cabeça para o lado. Aproximei-me, sem me lembrar do passado, aproximei-me por inércia, instinto. E tu olhavas um ponto fixo no lugar onde eu estava há pouco, com a mesma sensação de espera. Estava agora apenas a dois metros de ti e detive-me. Senti de novo todo aquele fulgor que nos unira, todo o sonho que uma mentira tua apagara tempos antes. Ouvi gritar o teu nome dentro do peito, dei mais um passo.
Abriu-se a porta do prédio e tu, sobressaltada, olhaste para trás. Era ele, o outro, aquele que agora caminhava a minha rota, entre os beijos dos teus braços. Afastei-me e uma das tuas lágrimas correu todo o meu rosto.
Felizmente há dois caminhos, entre os beijos dos teus braços! Nosso amor será clandestino!

sábado, 20 de dezembro de 2025

Síndrome da Porta Fechada


E se eu pudesse ter esquecido todos os momentos em que justifiquei a minha loucura com amor, desaparecido com a mala fechada, ter ouvido a sinfonia certa sentado num sofá velho ao despertar do crepúsculo. Se eu pudesse ter esperado pelo fim da conversa, mantido a porta longe dos meus dedos ansiosos para a abrir. Queria eternizar aquele momento. E hoje só digo isto.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2025

Body, Mind & Soul


Gosto de ti porque talvez possas vir a ser a minha alma gémea, não sendo. Pondo isto de outros modos: poderás ser uma das minhas metades, onde a simetria falha. Gosto disso. Não seríamos um. Quando as pessoas se fundem, parte delas é suprimida para entrarem em modo de compatibilidade. Nós não deveríamos. Nós deveríamos resistir à unificação. E poderás ir-me completando, ao mesmo tempo que deixas o espaço ideal para que me complete a mim mesmo.