Fixo o olhar no vazio e à mente só me vem aquela incompreensível vontade de pegar na caneta e escrever. Só que não tenho assunto. Não quero escrever sobre dores incompreensíveis, nem amores mal passados. Não quero tão pouco escrever sobre fotografias gastas pelo tempo. No fundo, não quero escrever-me. É que o espelho partiu-se e eu já não consigo ver-me. Também não quero, hoje, inventar uma história nova e bonita de enternecer corações duros ou pedras de riachos. Hoje quero apenas escrever. Só que não quero escrever-me. Então escreve-se sobre o quê, nestes dias?
Se eu fosse uma pessoa normal, teria virado para o lado, deixado que a vontade acabasse por passar. Mas como não sou, peguei na caneta e escrevi. Escrevi sobre a banalidade de não escrever sobre coisa alguma. Escrevi isto.