sábado, 28 de março de 2026

Black Mirrors


Custa-te levantares-te e veres-te ao espelho todos os dias? Custa-te não gostares do que vês? Tens vergonha da cor dos teus olhos e do tom dos teus lábios? Custa-te odiares-te um pouco mais a cada olhar que te dás?

A mim custa-me levantar-me todos os dias e não ter espelho onde me ver. E, ainda assim pouco de mim descobri como enganar. Quando as luzes se apagam todas de uma vez ainda permanece nos meus olhos um pouco desse encandeamento, que me leva a crer que mesmo no escuro consigo encontrar o caminho e desviar-me dos obstáculos. E ainda assim pouco de mim descobri como enganar.

Como é que me posso despedir de algo que não existe?

quarta-feira, 18 de março de 2026

Em Saldos


Talvez deva pôr um anúncio no jornal... Vende-se coração semi-novo, cerca de 66355300001 batidas gastas, bom preço. Pois afinal não há como reescrever grandes histórias. Chega de princesas, chega de sapatos, chega de sapos. Um pouco de realidade, despertar... E tu um dia foste real, realmente o que tinha de melhor. Talvez o sol se deva afastar por um dia até o sentimento ir embora. Mas não há sentimento nenhum. Passado já não muda. Por que chamam presente ao agora se nunca foi uma dádiva? Do futuro nem vale a pena falar.

domingo, 8 de março de 2026

Reconstruir em Silêncio


São poucos os que lamentam pelo verdadeiro motivo, os que choram pelas razões certas, por terem o coração pressionado em dor e um vazio composto bem no fundo.
A verdade é que são quase inexistentes as razões para chorar: de cada vez que tudo se desfaz, é apenas nosso o trabalho de reconstruir, talvez de forma diferente, mais segura.
E nós continuamos a ver tão pouco. E o mundo é tão vasto.