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Hoje vou falar-te ao ouvido, devagar, com a melhor dicção que conseguir e apertar muito os nós dos dedos entre as mãos nervosas. Estou frente a ti como o menino que, em tempos, não me deixaram ser. Doem-me os olhos. Ontem não dormi. Já passei por isto e sei o buraco em que me meto. O amor que me dás é um eco da minha própria voz. Não há nada teu. Não há marcas para além do teu cheiro que aprendi a gostar, muito diferente das perfumarias caras. É cheiro teu, emana de ti, sem etiqueta, sem preço, cuja amostra conservo na saliva que me secaste. És a gruta escura que me faz resvalar no piso que não vejo, que me faz cair e ferir os joelhos. Dizem-me para fugir, para correr a encosta que me levará a casa são e salvo. Mas eles não percebem que quero perder-me contigo, resvalar no piso incerto e ferir muito para além dos joelhos. Acusam-me de insensatez, de rebeldia, apelam ao meu bom senso. Contudo, eu já perdi a consciência há muito tempo, principalmente quando deixei a minha estabilidade mórbida por causa do teu fascínio. Sei lá se te quero, se te gosto, se te amo. Perde-te de vez comigo no mar alto, no fim do mundo, no meio de flores, de arco-íris, de chuva. Não tragas mochila, não tragas comida. Alimenta-te de mim, sente o que é, verdadeiramente, ter fome de alguém na sua plenitude.