quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

Distâncias Proíbidas


Não sei contar as despedidas. Sei-as sentir. Sinto-as demais às tantas. Sinto-as até o coração me escorre na cara, e a dor que me sai dos olhos se torna algo insuportável. Sinto-as a mais. Dizem que é normal senti-las assim. Não. Larguem-me os olhos, o coração e as mãos apertadas. Larguem-me o nó na garganta. Pois então, digo eu, que acabem com as distâncias, que as deixem contar e proíbam de sentir.

terça-feira, 20 de dezembro de 2016

Metamorfose


Nunca escrevi algo que não fosse real. Nunca consegui incorporar personagens que não me tivessem já passado na pele. Mas ontem à noite, pela primeira vez, consegui viver algo que não vivi. Consegui ser quem nunca tinha sido, e, ao escrever, vivi e senti personagens fictícias, que eu próprio criei. Ontem, ao contrário de sempre, escrevi uma história que ainda não foi ditada. E, para meu espanto, integrei-me nela. Senti-a como se fosse a minha. É a isto que chamo evoluir.

domingo, 11 de dezembro de 2016

A Profundeza do Ser


Não me contes segredos alheios. Quero saber os teus. Quero conhecer-te as manhas e os feitios. Quero conhecer-te os contornos por dentro. Quero ver com os teus olhos, essa vida que levas, para que a entenda.
Quero que me vejas como eu me vejo, para que entendas o sentido de tudo em mim. Quero porque querer sempre me bastou e nunca me impediu.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

O Improviso


Caminho sozinho pelos passeios da cidade. Auscultadores nos ouvidos, privando-me dos sons que o mundo emite. Fecho-me dentro da minha concha, protegido por uma bolha de algodão. Procuro com o olhar gente que me seja boa ao primeiro trocar de piscar de olhos. Tento encontrar neste ambiente que crio dentro e fora de mim, um sentimento, um pensamento ou o despertar de um belo sonho que até hoje não tive, para que tenha uma epifania e possa escrever as mais belas coisas que já li de mim. Não sai magia, por isso, improviso.

quarta-feira, 23 de novembro de 2016

Pesadelos Reais


Tantos anos que passaram sem me aperceber, sem lhes dar a mínima atenção. E então, hoje parece que me apercebi que estava a perder a minha vida. As coisas mais pequenas, as tais a quem eu devia dar importância ou um significado ainda maior, surgiu-me assim, como que de repente. De tanto que já fiz de mal, de tantos pesadelos a que sobrevivi e a tantos sonhos em que me mataram, cortando-me o folego em tantos momentos durante tantas noites. Parece que todos os pesadelos que me atormentam à noite, se tornaram na única fonte de inspiração, os únicos que libertam a adrenalina presa no meu corpo.
O meu alter-ego quer um mausoléu digno de um rei. Não sei se isso alguma vez será possível.

domingo, 13 de novembro de 2016

Demasiada Bagagem


Receio apaixonar-me por ti. Que o tempo que passarmos juntos, até depois da hora de saída, não seja suficiente. Não me faças perguntas difíceis. Não me faças prometer algo que eu não saberei cumprir. Viver sem me lembrar do que passei será um fardo demasiado grande para alguém carregar comigo. Não se tornará mais leve. Vai custar mais, por saber que alguém carregará o meu fardo comigo. Por isso receio apaixonar-me por ti.

sábado, 5 de novembro de 2016

Quando nos Faltam as Palavras Certas


Se eu tivesse as respostas eu escrevia-tas sem dúvida nenhuma, nem hesitava responder-te de forma clara a tudo aquilo que perguntas ao diabo. Rasgas os pulsos na tentativa de largar lágrimas de sangue, soltas os gritos desesperados que te fazem cortar a garganta, rebentas com o coração que não sabes como te consegue manter viva. Pedes a alguém que faça alguma coisa para te livrar dessa possessão que te traz tantas dúvidas, tantas doenças às portas do céu desse teu delicado e petrificado coração.
Partilhamos a mesma doença. Cobre as feridas, as cicatrizes dos cortes. Somos dois cadáveres de letras, possuídos pelo medo de morrer sem antes concluir todas as obras a que nos propusemos acabar antes do nosso tempo.
Quando nos faltam as palavras certas para escrever o que não queremos perder...

sexta-feira, 28 de outubro de 2016

As Incógnitas


Há coisas que serão sempre uma incógnita. Há coisas que por mais que tentemos descodificar ficarão apenas pela tentativa falhada de não o conseguirmos fazer. E há histórias que serão continuamente um ciclo, até deixarem de o ser. Desejamos saber o que será daquilo que no passado não chegou a ser, desejamos recomeçar a história e escrever um novo final, desejamos atravessar os desertos e contruir um paraíso. E, por momentos acreditamos que é possível, que é o caminho. Acreditamos e construímos um sonho real. Mas, num instante, tudo muda e entramos de novo no ciclo vicioso. Tal e qual como antes. Tal e qual, mas desta vez deixando marcas ainda mais fortes e difíceis de curar. Apenas fica a certeza que serão uma incógnita, tal como desde o dia em que a história começou.

quinta-feira, 20 de outubro de 2016

Color Blindness


A vida é injusta. É um facto. Não há a mínima necessidade de o contornar. Fazemos planos, desde pequenos, traçamos linhas com um pincel delicado, vamos ser astronautas, bombeiros, professores. E de repente, esse mesmo pincel delicado borra a pintura. Desfaz tudo. Manda-nos ser engenheiros espaciais e nunca sentir a gravidade zero. Manda-nos apagar o fogão e evitar pagar a conta dos bombeiros e remodelação da cozinha. Manda-nos aprender a desdenhar os professores porque sempre apanhamos os mais complicados a ensinar. Manda-nos ter uma profissão segura, e deixar a arte para um dia por semana, lá no teatro mais perto e se houver tempo.
A este quadro digno de ser queimado, podemos juntar muitas mais partidas da vida, muitos mais pincéis delicados são capazes de nos atraiçoar, naquele instante onde misturamos o azul e o magenta, metemos demasiado azul e o quadro fica escuro. A vida não tem brilho, não é bonita. Preferia-a a preto e branco. Peço que seja a preto e branco. Mas já isso é demais. Ela mete mais cores ao barulho. Porque ela é assim. Impossível de contornar sem sair dos seus apertados riscos.

quarta-feira, 12 de outubro de 2016

A Única Oportunidade


Ele queria morrer. Queria cair ao chão e nunca mais se levantar. Pergunta-se porquê, porquê a razão de o tratarem assim. Tratarem-no como se ele não fosse nada. Ele grita porque não quer realmente morrer, mas a vontade é de ficar sem sentimentos, sem qualquer tipo de moção, tornar-se naquele homem que não sente nada. Deram-lhe tantas promessas, tantos sonhos, tantas vitórias que iria conseguir ganhar, mas só o fizeram iludir de falsas esperanças, de falsos sorrisos, de sonhos que nunca teve.
Não tem a vida toda à sua frente, tem somente uma vida toda à sua frente e um medo profundo de não a conseguir ver. E isso consome-o noite e dia.

terça-feira, 4 de outubro de 2016

Another Game


Espero que voltes, que entres por aquela porta e digas que está tudo bem, enquanto eu finjo que bem estou também, pois suficiente foi o tempo de se secarem as lágrimas que sem te aperceberes deixaste que caíssem, uma por uma.
E assim será quando chegares, um jogo de figuras em que eu interpreto o papel de dono da felicidade enquanto tu crês que essa é a minha pele, ou será que, tal como eu, finges? Serás tu tão ator quanto eu e, afinal fazemos juntos, um jogo duplo? Porque parece não perceberes o que te digo sem palavras?
O pior ponto (quase) sem retorno é aquele em que, em voz ténue, alguém te pergunta "Quem és tu?". Tudo porque não conseguiste lutar contra o que te fazia deixar de ser tu mesmo.

segunda-feira, 26 de setembro de 2016

Outros Tempos


Fossem os tempos outros e não poderia pintar as flores que te apresento a preto e a branco com as cores da vida. Fossem outros os tempos e talvez o amor nada tivesse tão forte como o sorriso no rosto de um anjo como tu. Fossem outros os dias em que o sol raiasse acabando por fim de fazer suar os corpos que juntos trocam as palavras do amor.
Fossem os tempos do passado tão bons como os de agora e fossem os de agora tão bons como os do passado. Por muitas horas que passe ao teu lado nada substituirá os minutos que perdi a olhar para ti, observando o teu rosto e os teus gestos, estudando cada movimento teu, para que um dia mais tarde me possa lembrar de tudo.

domingo, 18 de setembro de 2016

Vírus


Deixei o bicho entrar. Trepou por mim acima e instalou-se bem aconchegado na zona do meu peito, na caixa torácica, do lado esquerdo. Recebi-o calorosamente e nada do que possa fazer alterará o seu habitat.
Não derivo de ninguém, ninguém deriva de mim. Sobrevive sem mim, eu sim não sobrevivo sem ele. Não faz sentido, nem o sentido o faz. Nada sei, não sei nada e sei de cor o trilho que ele segue, os sintomas que se manifestam em cada poro do meu corpo. Nada é o que parece ser. Não há qualidade na minha existência senão a que a ele lhe reservo. Alimento-o.
Não derivo de ninguém, mas ele deriva de mim, como um pedaço de vidro espelhado partido nos meus olhos. Deriva sem autorização, sem que eu lhe permita.
Deixei o bicho entrar. A mossa que ele fez já está demarcada, a ferida que ele abriu mantém-se por sarar. Constrói o seu próprio mundo. Existe para além do que vejo e ainda assim não vejo para além do que existe.

sábado, 10 de setembro de 2016

O Saber Perder(-me)


Perdi. Como é viver? Como é sentir que o mundo é o lugar a que se pertence?
Perdi as palavras para poder dizer que gosto da vida, perdi o gosto de acordar pelas manhãs quentes de verão. Baixo a cabeça, acho que perdi o mapa pelo qual me guiei até então, o então que perdi palavras para explicar, o então que me deixou perdido. Perdi a rota e estou perdido para saber o quão perdido estou.
Perdi-me.

sexta-feira, 2 de setembro de 2016

Farol de Esperança


Com o passar dos anos, as responsabilidades acumulam-se em ondas enormes que fazem balançar esta pequena embarcação. Cada escolha, cada decisão, é um rodar de leme, é mais uma onda rasgada pela proa. Só tens de aguentar os salpicos e seguir, continuar a navegar até ao abismo do inevitável.
Ao teu futuro, não lhe dês um barco salva-vidas contra as marés, dá-lhe antes uma âncora e liga ao teu farol. É que o barco vira, mas a âncora de confiança vai manter-te lá, na tua alma, de pé fincado. E, um farol de crença irá guiar-te sempre a casa, a porto seguro.

quinta-feira, 25 de agosto de 2016

O que Realmente Importa


Escrevo. E apago. Perdi-me de todos os caminhos para a inspiração. O que é o mesmo que dizer que me perdi do amor. Ou no amor. Perdi-me tanto que perdi o sentido dele. Aprendi a gostar, sem amar. Aprendi a sentir desejo, sem coração. Aprendi a sentir fogo, sem chama. Aprendi a chorar, sem tristeza. Aprendi a querer, sem lutar.
Talvez a vida seja mais do que isso. Talvez um dia encontre por aí quem me devolva a chama e o coração e a força. A tristeza dispenso-a.
Com o tempo, percebi que estar apaixonado é bom. Mas ser livre de alma e de coração pode ser ainda melhor. Percebi que ter alguém na minha vida não tem de significar andar de mãos dadas pela rua, não tem de significar dizer a todo o mundo que há alguém que me faz feliz.
Mas, acima de tudo, percebi que a felicidade está no nosso ser. Está na nossa força e no nosso lar. Está nos momentos com a nossa família e com os nossos amigos. Está dentro de nós. No que somos e vamos sendo. Ao lado de quem não nos perdeu nem nos faz perder.

quarta-feira, 17 de agosto de 2016

Apanhado nas Teias


Onde está a minha luz? Onde está a alegria que devia ser contagiante? Acho que deixei que tu tivesses esse efeito em mim, essa vontade de viver que me inspira. são paredes como as que foram construídas à minha volta que me impedem de te ver melhor, são as paredes que construí que me dizem quem sou, que me dizem que dor é esta que sinto no coração. Poderia dizer que és a doença, que és ao mesmo tempo a vacina para o meu mal. Apaixonei-me pelo teu pecado, envolveste-me numa teia da qual me foi difícil endireitar, principalmente para sair.
Já não tenho nenhum lugar para me esconder, apenas me resta esta escuridão que me persegue dia e noite, que me invade os sonhos. Perdi-te. A vida segue. O relógio não para. Fomos tudo. Agora nada. E eu, aqui parado, fico calado. Talvez seja apenas isso. Sentir escorrer. Perder.

terça-feira, 9 de agosto de 2016

Por Estranhas Marés


O mar não devia acalmar ninguém. É violência, embate após embate, quebras violentas, força degolando o que é nosso, e tudo é amor. Até o sabor de um beijo molhado se torna negro quando o mundo gira para o lado desconhecido, por cima de muralhas da China e porcelanas inacabadas. Inacabadas porque roemos a vida toda, mas ficamos sempre metade. Há sempre uma cadeira vazia, um suspiro sonoro, um eco vazio, alguém que nos deixa só a sua falta fria. Não há ninguém. Há quanto tempo não há gente no teu mundo?

segunda-feira, 1 de agosto de 2016

Mãos nos Bolsos


Há vontade, eu tenho-a. Aqui, no bolso do casaco. Esqueci-me de que a tinha guardado lá. Ou esqueci-me ou decidi não lhe mexer mais, pelo menos por agora. Caminho lentamente, cabeça baixa, ombros para trás. É inverno, as árvores estão despidas e o nariz gelado. O céu, cinzento, ameaça chuva. Em mim já chove há algum tempo. Não o suficiente, parece-me. E ao mesmo tempo, quero voar. Mas o vento é demasiado forte e eu ainda não tenho asas. Se, por um momento, pusesse a mão no bolso, a vontade tocar-me-ia os dedos e espalhar-se-ia por todo o meu corpo. E o sol viria, se o chamasse.

domingo, 24 de julho de 2016

Vírgulas e Pontos


Apenas os fins são certos. E, no entanto, não há nada de instável ou vasto em mim. Nem tão pouco derramado. Só há eu. Tanto eu quanto seja possível. Muito mais eu do que alguma vez pensei ser possível. Eu, feliz.
E fui. E sou. Sem querer saber os meus ontens. É difícil crescer. Morreram esperanças e devaneios de infância, sonhos ingénuos e sem futuro. E mesmo sabendo que tudo tem um prazo de validade, há coisas que acabam por ficar entranhadas cá dentro, talvez até para sempre. Ainda assim, sei que um dia terei de refazer as malas, forçar as antigas memórias e os novos sonhos dentro delas. Direi adeus, e despedir-me-ei com um beijo. De bom dia, boa noite, bom fim. Bom recomeço. Um dia terei de dizer.
Eu, feliz.

sábado, 16 de julho de 2016

Take It or Leave It


Silêncio, é do silêncio do mundo que eu preciso, é do silêncio da vida que preciso, que quero sentir. Estou cansado de viver a correr, preciso de uma pausa, preciso de tirar as preocupações da cabeça, de deixar a mão à vida, deixar de lhe dar colo, fazer com que comece a andar por ela própria, pois fiquei cansado de ter de lhe dar apoio. Preciso de viver, preciso de sentir e com ela como fardo não conseguirei andar para a frente.
Não sei o que faço. Se continuo com ela ao colo e faço a minha vida, ou se a largo e me faço ao caminho.

sexta-feira, 8 de julho de 2016

Cientista da Alma


Uma data basta para evocar uma época. Uma flor basta para simbolizar uma estação do ano. Quantos preceitos e axiomas dogmáticos são necessários para exprimir o amor?
Sob o nome genérico de amor, quantas variedades do instinto? Quantas explosões de temperamento? Quantas satisfações de vaidade?
Existem mil formas de o exprimir, mil formas de o sentir. O amor não é apenas um impulso do instinto, é uma ciência da alma, a mais divina e a mais rara. É como se o amor fosse uma iniciação lenta, pela qual a alma se eleva à contemplação do mais puro infinito.

quinta-feira, 30 de junho de 2016

Somando Silêncios


Sem conseguir controlar, despertou-se em mim, uma sensação dolorosa de não querer aceitar o que a realidade, há muito, teimava em mostrar. Abriu-se uma porta que me fez ver que há coisas que, passe o tempo que passar, não vão mudar.
Há um tempo em que um ombro amigo já não chega e precisamos de um braço inteiro. Há um tempo em que as palavras deixam de fazer sentido e a falta de ações ganha uma importância fatal. Há um tempo em que é preciso parar de insistir no que não tem futuro, o mais difícil é saber como fazer. E, há um tempo, em que o silêncio passa a ser a maior defesa. O mais importante fica dito na presença do silêncio.
Cada um aceita o amor que acha que merece.
Como se nesta simples frase, estivessem somados todos os dias da minha vida.

quarta-feira, 22 de junho de 2016

Supermassive Black Hole


As ondas engoliam as rochas, e os pássaros voavam em círculos à procura de peixe. Ocasionalmente mergulhavam para depois voltar à superfície com o que haviam apanhado no bico. As árvores ondulavam ao vento, a primeira brisa da primavera. Eu estendia-me encostado a uma cerejeira acompanhado apenas pelos meus pensamentos.
Até que alguém abriu o ralo e tudo começou a ser arrastado para os céus. Primeiro foram as nuvens, depois os pássaros, que batiam as asas desesperadamente numa tentativa de se salvarem. As folhas cederam logo, e depois troncos foram arrancados e sugados.
E eu deixei-me ir. Seguido de um fio que parecia nunca terminar, e que ninguém agarrou.

terça-feira, 14 de junho de 2016

Das Coisas Que se Foram


Deixei de acreditar em deus. Toda a gente fala das crianças e dos seus amigos imaginários. Demorei algum tempo a perceber que os adultos também tinham um amigo imaginário, esse muito mais grandioso e magnífico mas na sua essência igual... invisível, inexistente, imaginário.
Deixei de acreditar na esperança, embora já mais tarde. Por muita esperança que houvesse, pessoas vão-se sem nunca ter a oportunidade de dizer adeus.
Deixei de acreditar em sempres. Foram muitas as juras e as promessas. E de repente era como se não tivéssemos crescido juntos, como se não se tivesse passado uma vida. De repente éramos estranhos. Não houve sempre que nos valesse.
Deixei de acreditar no amor também. Não sei o quando, não sei o porquê, não sei se alguma vez acreditei. Acho que duas pessoas podem ser felizes juntas, mas tudo o resto é demasiado fantasioso, demasiado utópico, demasiado mentira.
E mesmo assim sou feliz. Acredito em quê? Em nada. Em tudo. Em mim. Nos outros. Nas pequenas coisas. Nos finais felizes de todos os dias.

segunda-feira, 6 de junho de 2016

O Significado de Uma Vida Plena


Não tenho medo de falhar, não posso ter medo de falhar. Apenas preciso de tempo, e esse tenho que chegue. Mas só vou estar disponível no final do ano. só vou dormir quando o que tiver por acabar estiver acabado. No fim poderei descansar, no fim poderei dizer que fui um tolo, um maluco, mas até lá só viverei para respirar. Eu quero cortar a fita da meta, quero rasgar os joelhos no chão quando gritar pela vitória, quero gritar com o fundo dos meus pulmões, as dores e alucinações que tive durante a caminhada que me levou ao fim.
Porque, se para ser melhor tenho de cair mil vezes, que caia duas mil. Saberei que, ao falhar tantas vezes, saberei duas mil maneiras de me voltar a compor, de me voltar a levantar. Porque, no fim, antes de a morte chegar, terá primeiro que bater palmas.

domingo, 29 de maio de 2016

De Não Cortar a Respiração


Saí da minha zona de conforto. Avisaram-me que a sensação não ia ser agradável, que ia cair e voltar a cair. Que o sangue iria jorrar dos meus lábios, das feridas que o meu corpo adquirisse como tempo, com os murros que a vida me desse, mas o mais importante era continuar-me a levantar, continuar a acordar cedo de manhã, sorrir para o sol e pôr os meus pés na terra.
Não basta lembrar, tenho de querer respirar todos os dias.

sábado, 21 de maio de 2016

Novos (Re)Começos


O contentamento encontra-se em qualquer contexto da vida, onde se brinca, onde se ama, onde se canta, onde simplesmente a vida ganha um aroma mais característico e a chama do nosso coração aumenta de intensidade. O momento é sempre inigualável e singular. Um corpo repleto de amor, uma boca que entoa palavras cheias de certeza, com a confiança de que sempre que se abre o coração para os dias bons consegue-se deixar um pouco de lado as adversidades que às vezes tanto assolam o nosso quotidiano, a melancolia finda-se e todo o novo dia é nada mais que uma nova música para os nossos ouvidos. É bom saber (re)começar.

sexta-feira, 13 de maio de 2016

A Última Entrega


Ontem tive de ser uma pessoa crescida. Pus todas as tuas coisas numa caixa e fui até à tua porta. Toquei à campainha, entrei no elevador e encontrei-me contigo. Trocámos caixas de memórias e sentimentos como se nada fosse, assim como meia dúzia de palavras de circunstância. Fizemos de conta que somos pessoas crescidas e escondemos os eus que foram outrora um nós. E mais um adeus. Ao descer, confesso que por instantes quase me perdi. Foi apenas por um momento, mas não soube de mim. Olhei para cima e contive-me. Felizmente, o ar frio da noite devolveu-me a lucidez, devolveu-me a mim. E aí fui finalmente uma pessoa crescida. Cresci um bocado e voltei para casa, sozinho comigo.

quinta-feira, 5 de maio de 2016

Relógios Parados


Meu amor. Não tenho palavras. Dei-tas todas, durante o tempo que passei contigo. Não me arrependo. Só gostava que durasse para sempre.
O tempo voa e eu, às vezes gostava que ele parasse. E que eu, também, parasse no tempo... para ter a certeza que alguns momentos podem ser eternos... Apesar de serem, apenas, lembranças.

quarta-feira, 27 de abril de 2016

Dente de Leão


Ela nunca fica muito tempo. Talvez não consiga, ou talvez não goste, ou nunca tenha encontrado uma razão para criar raízes. Veio numa tarde de primavera, ficou durante o verão e no outono já se começa a desprender, com o vento a puxá-la para longe de si, de mim e do mundo. E, quando o inverno se instalou já não a encontrei. Não em mim, nem nela. Foi-se.
É o curioso sobre os dentes de leão como ela, sabem, nem a si próprios estão agarrados.

terça-feira, 19 de abril de 2016

Falar sobre Amor


Tocas-me, arrepio-me. Voltas a tocar-me e volto a arrepiar-me. Beijas-me, beijas-me mais uma e outra vez. Prometi que me queria afastar de ti, que ia terminar de vez com os nossos encontros. Como posso? Não posso. Nem são propositados, pois não? Olhas-me. Como se resiste a um olhar desses? O cheiro do teu perfume, o jeito tão característico de como passas a tua mão pela minha, a forma como consegues cativar-me. Quando é que isto vai acabar? Deixas-me sempre com desejo de mais. Podes parar? Podes parar de me fazer amar-te? Se soubeste fazer com que te amasse, também deverias saber fazer o contrário. E agora? Vou viver de quê? De quem? Da tua ausência, da falta do teu amor? Vou viver como, sem ti?

segunda-feira, 11 de abril de 2016

Passado é Passado


De vez em quando temos saudades do que passou, do que ficou. De vez em quando, temos saudades do que sabemos que, inevitavelmente, não volta mais. Dói, não poder voltar atrás no tempo e reviver todos os momentos que nos fizeram bem. Revivê-los, fazer o tempo parar e pararmos, também nós, no tempo. Tornar os momentos eternos, quem sabe, se a eternidade dos sonhadores assim existir. Dói, voltar aos mesmos lugares de sempre e só restarem lembranças que nos preencheram a alma e nos tornaram grande parte do que somos.
E, no fim da viagem, a solução é mesmo deixar o pensamento parado, quieto e silencioso, não pensar para não doer, ou, na pior das hipóteses, doer menos.
Querido passado, não voltes, fica onde estás.

domingo, 3 de abril de 2016

Follow-up


O amor não começa quando se quer, nem acaba quando se deseja. O amor é forte, destemido, indomável. Se não fosses tu, eu seria outro. Dizem-se os amantes: eu quero viver na tua vida. Os amantes adivinham-se em palavras, olham-se nos olhos à procura, fecham-se em quartos pequeninos. Perdem-se um no outro, agarram-se com toda a força dos dedos e dos braços, beijam-se sobre fundos abismos. O amor sempre mete muito medo. O medo de vir a faltar, depois de tudo ter prometido. Vai, mas não apanhes nenhum frio, e depois volta. Os amantes regressam quando a luz é pouca a um supremo egoísmo. eu e tu e mais ninguém. O mundo pode desabar, o mar mudar de cor, a lua cair de repente. Só importa o brilho dos teus olhos e o sangue a bater nas minhas veias. Sabe-se lá o amor. O mundo não precisa saber nada disto.

sábado, 26 de março de 2016

The Riddle


Começa antes de ter começado. Um pouco antes. Ninguém sabe quando começou. Só se sabe depois de já ter começado. Nem se sabe o que é, sabe-se só que já começou.
E depois não acaba quando devia acabar. Dura mais tempo. O coração bate mais tempo. Não há maneira de parar o coração.
E então é assim. Não há muito que se possa fazer. É mais do que suficiente. Tem de se aguentar. Todo o tempo que durar. Sem nunca saber, do princípio ou do fim.
Pode-se esperar. Sem saber o que se espera. É esse o verdadeiro esperar. Ninguém pode adivinhar o que traz. Pode trazer tudo. É isso tudo que se deve esperar.
Não tem nome, forma ou cor. Vem quando quer. Vai quando não se espera que vá. Não se deixa adivinhar. Ninguém tem mão nele.
 

sexta-feira, 18 de março de 2016

As 1001 Notas


Todas estas histórias em mim, onde as li? Perdi-as há tanto tempo que já nem sei quem sou. Não distingo as vidas das personagens das minhas, ou se serei uma personagem dentro de mim, ou melhor, dentro dela. estou para aqui amontoado, a apanhar pó a um canto, ou talvez num centro, já não sei. Não percebo nada desta mistura de pessoas. Falo mas ninguém ouve. Ouço, mas ninguém fala. Não sou mais do que uma praia no inverno. Já te disse que ainda acredito em magia? Não sei bem porquê, o coelho nunca mais aparece... Talvez seja por ser tudo real aqui dentro.

quinta-feira, 10 de março de 2016

Reanimação


Sentes a tua pele abrir, dos pedaços de carne que estão agora separados por um rio de lágrimas vermelhas. Dói como nunca antes doeu, talvez seja por saberes que ou era desta ou era nunca. Podias ter ficado em standby, esperado mais uns tempos até dar resultado, mas a impaciência pela verdade levou a melhor. Podias ter ainda escolhido anestesia geral, mas gostas de sentir quando te tocam o coração. Mas, desta vez, desta vez não sabe bem, não são festas de recuperação. São choques de morte.

quarta-feira, 2 de março de 2016

Navegar


Atravessei meio mundo, ultrapassei marés, ventos e tempestades. Agora navego por outros mares. Não esperavas isto, pois não? Não tão cedo, eu sei. Mas não faria sentido que esperasses. Não quero a tua tristeza. Não quero o teu olhar triste. Há muita, muita coisa que não te disse. Muita coisa que nunca te direi. Mas não temas. Eu nunca temi estar ao teu lado. Mas já não estaria mesmo que pudesse. Nunca temi estar ao teu lado, sabes o que é isso? Não temermos o maior desafio que a vida pode fazer? Já não te choro. Já não choro a tua ausência. Porque sei, com todas as certezas que algum dia tive, que se fosse para ser, tinhas atravessado o outro meio mundo, tinhas ultrapassado também as tempestades, para podermos, para sempre, estar lado a lado.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

Confessions


Uma carta. Já não sei há quanto tempo não escrevo uma carta. Só o faço quando sinto o coração pesado, sabes? Aprendi há muito tempo que as pessoas nem sempre têm disposição ou o tempo necessários para ouvir. E portanto aprendi a ouvir-me. Já há bastante tempo que construí uma versão de mim que não precisa de ninguém, que aguenta e sobrevive a tudo e que não tem medo de nada. Uma versão melhorada e à prova de fogo, impossível de magoar.
Há coisas que me são difíceis de admitir... Às vezes é ridículo quão simples e boas as coisas podem ser se tivermos um pouco de coragem. Coragem para arriscar, para admitir o que era quase lógico, óbvio. E que eu se calhar não queria ver. Que se calhar não devia ter visto.
Esta seria uma carta para ti, Mas, infelizmente, as circunstâncias são mais uma vez traiçoeiras e o timing nunca é certo. Assim, acho que esta vai ser mais uma carta de mim para mim. Com amor.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

A Última Paragem


A última carruagem tardou em chegar. Decidi mais uma vez esperar até ao último instante para apanhá-la, a coragem sempre me faltou para me despedir. Mas, consegui. E é após este tempo mantido em silêncio, que debito um pouco sobre aquilo que senti. É inevitável não doer quando existem despedidas. Mas a vida é mesmo assim, repleta de chegadas e partidas. Quem tem mesmo que ficar, fica.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

Insónias


Os ponteiros do relógio de parede marcam três horas da manhã. Ao ritmo dos ponteiros metálicos, ouvem-se três badaladas desesperadas e sonantes. Cada dia que passa, sem pedir licença, a rotina repete-se. Os pensamentos em constante revolução, com um conjunto de trapos como maior companhia. Uma tempestade de impulsos. Todas as utopias quebradas são como fantasmas a atormentar. No fundo, umas simples palavras bastariam: "Se o mundo do amor é redondo, havemos de nos voltar a encontrar." Quem as poderia adivinhar?
E, nesse momento, adormeceria. Tranquilamente.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

O Duro Despertar


Tive um presságio do infinito. Se o tempo me escapasse por entre as arestas polidas da minha memória, que diferença faria afinal?
Sentei-me e escrevi.
Mas onde e quando? Qual seria o tempo e a época de colher os frutos e talvez das flores da minha ambiguidade?
Temo por mim, por não ter razão em nada e por precisar de tudo. Por me agarrar a uma esperança e nela crer a minha salvação.
Pergunto-me quando iremos acordar e quando iremos de facto viver. Quando deixaremos de lado o nosso ego para nos entregarmos à realidade de estarmos vivos e de não sermos escravos de nada senão da nossa consciência. Podíamos ser tanto e deixámo-nos ser nada. E porquê? Convenceram-nos a isto. Que somos pó de estrelas que se convencem diariamente que a vida não serve de nada e que o estar vivo pode ficar para depois.
Mas existe. Tudo existe.
Tenho medo. E tenho amor. E de resto sou apenas terminações nervosas condenadas e extasiadas pela certeza plena da sua liberdade.
Nascemos para sermos felizes.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

Pirilampo Mágico


Os pirilampos podem ser criaturas magníficas, desde que vistas a uma certa distância. Se te aproximares demasiado, podes passar a achar que não passam de insetos repugnantes que podiam ser facilmente esmagados, não fosse pela luz que representam.
Acontece, contudo, que por vezes gostas de um em particular e já não parece repugnante, é só adorável e teu. E portanto leva-lo contigo, dentro de ti, para onde quer que vás, e deixa-lo iluminar-te.
E quando ele desaparece?
Ficas na escuridão, e não há nada. Não há luzes para esmagar nem para levares contigo.
Arranquei o brilho dos meus olhos e fiz um mapa. Ia conseguir sair dali. Foi então que ouvi um bater de coração. Também estavas na escuridão. Por isso fiquei contigo.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

Demasiadas Questões


Onde me perdi? Foi no amor ou no medo? Terá sido no tempo? Onde me perdeste? E porquê? Não sei o que sinto. Sei que cultivei o meu amor durante demasiado tempo. Quanto de mim mereces? Quanto de mim mereceste? E agora? Quantas vezes no teu dia me lembras? Nos lembras?
Juntei as folhas, ordenei os cadernos, arrumei a secretária. A caneta, o lápis e a borracha foram para a gaveta. Pus os pensamentos de lado. Nesse dia não havia nada para escrever. Nessa noite não havia nada para dizer.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

Feridas


Esta ferida que me fizeste nunca mais se decide a cicatrizar. E muitas pessoas vêm por aí na tentativa de a curar, ou pelo menos, minimizar, mas ninguém consegue. Não sei se tu conseguirias, mas um dia espero(-te) e desespero(-te). Se o nosso futuro não é ao lado um do outro, então, por favor, alguém te tire do meu caminho. Ou pelo menos, do meu coração.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

Dores de Crescimento


Tropecei numas gavetas e dei com umas palavras minhas. Parei o que estava a fazer e li-me. Fui mais para trás. Fui ler outras versões de mim. Todas elas profundamente apaixonadas. E quanto mais recuava mais bonito era o mundo. Mais eram os sempres, mais eram os sonhos de finais felizes. Isso acabou, pelo menos por agora.
E não faz mal. Em versões de mim passadas, a solidão assustava-me. Agora, acho-a um pouco inevitável. Crescemos e a nossa casa deixa de nos chegar. Mudamo-nos, mas vamos sozinhos. E na imensidão dos prédios, no silêncio das viagens de carro, na correria de todos os dias, é inevitável que andemos sozinhos.
Penso que podia voltar àquelas versões de mim. À que acredita em sempres e que sonha com finais felizes. Mas assusta-me. Tenho medo. Bato o pé. Se deixar entrar alguém agora será que ainda haverá espaço para mim? Não quero perder a minha solidão. Já perdi tanta coisa.