
Chegaste, com a mesma música de sempre e com a franqueza do costume. As minhas pernas balançaram ao ritmo da tua melodia no mesmo instante. Segurei-me ao portão de ferro e decidi que, se caminhasse lentamente de olhos presos no chão, não cairia. Deixamos sair umas quantas notas da boca sedenta de algo mais e, finalmente, abandonaste-me ao pé de mim na cadeira de madeira velha. O espaço... o espaço que te afastava de mim e que só me dá vontade de o rasgar, um espaço que eu começo a alargar ainda mais com as tuas promessas repetidas a cem mil espaços como o nosso. Talvez eu seja tonto, talvez eu perca aquilo que mais desejo, mas o meu coração não pode ser posto tão a descoberto abruptamente. Tenho medo que se constipe e que tal o leve a ficar com febres altas. Combinamos que a noite pode ser dilatada como o nosso espaço abismal e vamos ouvir as ondas estalar no meio das conversas feitas de vozes jovens e alegres. Dou-me a ti no silêncio, naquele toque que ainda está gravado em mim e tu nem percebes como o meu coração, cada vez mais desprotegido e fraco de tanto resistir, se enche de possibilidades e reconhecimentos de algo transcendente quando me apertas com força a mão fria. Talvez tu não te importes assim tanto que eu resista, talvez não te importes assim tanto com um espaço encurtado, talvez eu seja apenas mais um espaço no imenso espaço que é o teu espaço.
Vou cair não vou? Vou fazer um grande corte no lado esquerdo do peito e tu, com a mesma música de sempre e a franqueza do costume, vais cantar essa nota perfeitamente limpa e harmoniosa num outro espaço qualquer.