quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

Alta Definição


Peço-te que me definas com toda a tua exatidão, pois já não sou o que era, já nem sei quem sou. Dá-me o meu nome e o meu sangue, deixa-me viver em ilusão, que sou a única pessoa no mundo com o poder em torno das minhas virtudes e que só a mim me compete decidir assuntos da minha própria vida. Dá-me autonomia.
Diz-me o que fui para poder ser melhor e aprender a viver de verdade à minha maneira. Preciso ir buscar o legado do meu antigo pensamento para reter valores e contradições, então diz-me o que fui, por favor. Nem sei se vale a pena, se o que fui não conta mas sim o que sou agora. Já não sei nada! Talvez fosse melhor começar sem saber o que fui, com completa apatia em relação ao passado. Simplesmente recomeçar.

domingo, 18 de janeiro de 2026

O Peso do Pensamento


Fui cor viva numa tela branca. Era já noite e o tempo estava ameno. Ouvi risos, conversas paralelas, algo que me pareceu o teu andar. Tinha acabado o meu time-out semanal e agora restava-me regressar a casa, deitar-me na cama alta e tentar não pensar. Ultimamente a cabeça pesa mais de tanto racionalizar as atitudes com as palavras e, embora saiba que não aprovam esta minha forma de ser, têm de perceber que o mundo não é assim tão leviano e fácil como me querem mostrar. Há muita estrada a percorrer, muitos espinhos a cortar. Gosto de ser livre, mais desprendido e, para mim, o gostar é sempre um gostar com tudo aquilo que daí advém. Que interessa o tempo ausente, as atitudes contraditórias, as palavras não ditas? O que interessa é que se gosta, independentemente dos pensamentos que nos possam ocorrer sobre os outros, dias a fio. Tenho frases que me vestem a pele, mas para mim é difícil mostrar o que sinto, impossível por agora. Eu não sou feito desse material.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

O Espaço Que Não Sei Rasgar


Chegaste, com a mesma música de sempre e com a franqueza do costume. As minhas pernas balançaram ao ritmo da tua melodia no mesmo instante. Segurei-me ao portão de ferro e decidi que, se caminhasse lentamente de olhos presos no chão, não cairia. Deixamos sair umas quantas notas da boca sedenta de algo mais e, finalmente, abandonaste-me ao pé de mim na cadeira de madeira velha. O espaço... o espaço que te afastava de mim e que só me dá vontade de o rasgar, um espaço que eu começo a alargar ainda mais com as tuas promessas repetidas a cem mil espaços como o nosso. Talvez eu seja tonto, talvez eu perca aquilo que mais desejo, mas o meu coração não pode ser posto tão a descoberto abruptamente. Tenho medo que se constipe e que tal o leve a ficar com febres altas. Combinamos que a noite pode ser dilatada como o nosso espaço abismal e vamos ouvir as ondas estalar no meio das conversas feitas de vozes jovens e alegres. Dou-me a ti no silêncio, naquele toque que ainda está gravado em mim e tu nem percebes como o meu coração, cada vez mais desprotegido e fraco de tanto resistir, se enche de possibilidades e reconhecimentos de algo transcendente quando me apertas com força a mão fria. Talvez tu não te importes assim tanto que eu resista, talvez não te importes assim tanto com um espaço encurtado, talvez eu seja apenas mais um espaço no imenso espaço que é o teu espaço.
Vou cair não vou? Vou fazer um grande corte no lado esquerdo do peito e tu, com a mesma música de sempre e a franqueza do costume, vais cantar essa nota perfeitamente limpa e harmoniosa num outro espaço qualquer.