
"Vai ser a última carta que escrevo." É este o meu pensamento todas as noites, mas as palavras não têm fim, as forças parecem renovar-se e o meu coração reage. Fui parar àquele hospital das memórias e o meu coração deixou de bater, deixou de sonhar, deixou de respirar nesse dia. O meu desejo é ir, nessa estrela onde agora moras. É estranho como me conseguiram reanimar, e como eu desesperei com tal cura. Eu já não tenho cura e as pessoas teimam em tentar curar-me. Não entendem que quando o coração vai embora, o espaço que ele ocupava não deixa de existir, fica ali, um vazio enorme, um buraco no peito que já não palpita. A alma fica a morar sozinha, sem vizinhos, sem conversas paralelas, sem direção. E o que farei ei? Ficarei aqui, sem coração, se sentir, sem respirar. O meu coração deixou de bater nesse dia. Os médicos dizem que ainda o tenho, mas eles não sabem o que sinto, nem eu lhes quero descrever. Talvez esteja na hora de eles me apagarem as luzes. Mas teimam em deixar-me vivo, mas eu estou vazio, vazio por dentro. Escrevo sem destino. Escrevo e penduro nos candeeiros das ruas vagas. Vai ser a última carta que escrevo, hoje.