terça-feira, 30 de novembro de 2021

A Árvore da Vida


Foi num dia de chuva. O teu cabelo cheirava a orvalho e das pontas nasciam gotas como se de árvores e frutos falássemos. Em ambas as mãos trazias sonhos apertados, entrelaçando muito os dedos como se temesses a ida de algo maior daquilo que podias dispensar. Já dispensaras demasiado. Tinhas os olhos doces, dois pontos de mel muito atentos e felizes, mas que, neste dia, apresentavam um vermelho invulgar. Falavas depressa, numa correria atrapalhada como se o comboio da vida te fugisse das mãos pequenas. A tua expressão era séria e, quem a visse, diria que nuvens negras se aproximavam. Os pés doíam-te, descalços, a sentir com mais firmeza as irregularidades do piso. Não te importavas, dores maiores existiam. Foi num dia de chuva que te abandonaste e que caíste desamparada ainda fria do orvalho. Frutos viste nascer dos teus braços e árvore ficaste.

sábado, 20 de novembro de 2021

Sometimes


Por vezes na lassidão dos dias, há letras que ficam por juntar, palavras que escrevemos mentalmente e que nunca chegamos a dizer. Por vezes, no alvoroço das manhãs, deixamos perder-se o som do silêncio e as letras que não se dizem tornam-se pontas soltas de um passado mal contado. Por vezes, no errar das noites, frequentamos de novo os lugares que um dia perdemos e entre o passar dos dias, reencontramos neles a plenitude. Por vezes, as pessoas que nada nos são, são aquelas que mais sorrisos têm para nos oferecer. Por isso, no dia da tua partida vou deixar tudo espalhado pelos nossos sítios. Sei que um dia hás-de perceber que estavas enganada e vais reencontrar esses sítios, mas já não serão nossos.

quarta-feira, 10 de novembro de 2021

Sour


Não sei se é bom ou se me faz bem, mas sinto-me bem assim, aninhado em mim mesmo. É que comigo, sei que posso contar. Sobre mim, sei que me poderei sempre aninhar. Porque tu já não me deixas aninhar em ti. O meu prazo de validade expirou, não foi? Sinto-o. Apesar de ainda me procurares, sei que o nosso prazo expirou.
Houve uma altura em que me perguntei porque já não me querias. Será que só porque agora dou dores de barriga já não me queres? A ilusão de poder ser diferente, de o céu poder ser branco e não azul, de as rosas poderem ser todas azuis e não do comum vermelho. Eu pensava que tinha conseguido a receita. Que tinha descoberto, contigo, o segredo de um conservante forte, resistente às intempéries da vida. Mas afinal parece que também nós ficamos azedos. Dou-te dores de barriga agora. Por isso puseste o rótulo e despachaste-me com uma reclamação de produto sem validade para a loja onde me foste buscar.