sexta-feira, 28 de março de 2025

Sleeping Pills


Gostava de conseguir dormir. De descansar. De um bom par de horas esticado. Mas eu agora não durmo. Confesso que via o sono como um escape, como um analgésico. Fugia do exterior, fugia de ti. Descia persianas, fechava portas, escondia-me por baixo de lençóis antigos. Antigo ia ficando eu, cada vez com mais marcas na alma semeada de hematomas que não passam. Há dores que o tempo não leva, amores que o tempo não apaga. Eu não te quero apagar. Sou tão fraco. Tinha-me como mais duro nestas coisas, como mais decidido, como mais fiel a mim mesmo. Onde me meti? O que raio fizeste tu comigo? Pensava que a boca não me trairia. Digo-o com confiança. Digo-te a ti. E tu rasgas esse véu que tinha decidido pôr entre nós, retalhado,  que tinha demorado anos a costurar. E o coração balança. Nunca senti o chão fugir dos pés e digo-te: és a melhor a iniciar-me nestas andanças. Não tenho raiva, não tenho gritos, não tenho nada de mal para ti em mim. Só quilómetros e quilómetros de vazio, perdição, desilusão comigo mesmo. O sono não ajuda. O sono faz-me sonhar contigo e em como te quero lá. Dissertações de utopias a dois. Quero que o sono seja essa distância de segurança entre os nossos corpos e as nossas mentes. Sou um vulcão de desalento em erupção, não posso dormir. Mas pelo menos vou tentar não fazer barulho.

terça-feira, 18 de março de 2025

Matar a Saudade


Saudade. A eterna ausência. Arrastam-se cardos, morrem espinhos, e mais uma volta aos ponteiros. Cheiro a incenso e a vazio. Isto de quem entra e se aconchega num recanto, deixando a sua fragrância entre os lençóis que, após a despedida, se mostram estrangeiros. Extingue-se a química, o toque, o beijo, cada milímetro dessa pela que eu tanto quero sentir. Arderam as palavras e da combustão resulta, nada mais nada menos, que apenas saudade. Inspiro arrependimento, por ter deixado em corpo teu, apenas memórias e remorsos. A saudade é a pior companhia que se pode ter. Mas eu expiro longe, ainda, a esperança. A saudade, meu amor, também mata. Mas eu quero viver para sempre, contigo.

sábado, 8 de março de 2025

Chão Irregular


Dou por mim quieto, sentado no chão frio da casa pouco iluminada. Dou por mim parado no tempo, recordando-te em cada esquina deste espaço. Furaste a minha intimidade, o meu lugar por direito. Devias ter feito por ficar. Não fizeste e, por isso, fecho o portão de entrada atrás de ti e vejo-te desaparecer na escuridão cerrada. Carrego o teu peso comigo, não tenho vergonha de admitir que se eventualmente estiveres fora do meu caminho, nunca estarás fora do meu coração. Ficaste calada, mas por pouco tempo, e o que me dizes chega-me com uma suavidade invulgar. Mesmo que fales verdade, eu quero atos, provas, factos. Só lido com o palpável e o amor também o é. O amor não são palavras e nem nessas tu és boa comigo. Amor nunca foi sinónimo de ímpar para mim. No amor as convicções são poucas e só são permitidas aquelas que nos permitem proteger. Como as minhas.