sábado, 26 de março de 2016

The Riddle


Começa antes de ter começado. Um pouco antes. Ninguém sabe quando começou. Só se sabe depois de já ter começado. Nem se sabe o que é, sabe-se só que já começou.
E depois não acaba quando devia acabar. Dura mais tempo. O coração bate mais tempo. Não há maneira de parar o coração.
E então é assim. Não há muito que se possa fazer. É mais do que suficiente. Tem de se aguentar. Todo o tempo que durar. Sem nunca saber, do princípio ou do fim.
Pode-se esperar. Sem saber o que se espera. É esse o verdadeiro esperar. Ninguém pode adivinhar o que traz. Pode trazer tudo. É isso tudo que se deve esperar.
Não tem nome, forma ou cor. Vem quando quer. Vai quando não se espera que vá. Não se deixa adivinhar. Ninguém tem mão nele.
 

sexta-feira, 18 de março de 2016

As 1001 Notas


Todas estas histórias em mim, onde as li? Perdi-as há tanto tempo que já nem sei quem sou. Não distingo as vidas das personagens das minhas, ou se serei uma personagem dentro de mim, ou melhor, dentro dela. estou para aqui amontoado, a apanhar pó a um canto, ou talvez num centro, já não sei. Não percebo nada desta mistura de pessoas. Falo mas ninguém ouve. Ouço, mas ninguém fala. Não sou mais do que uma praia no inverno. Já te disse que ainda acredito em magia? Não sei bem porquê, o coelho nunca mais aparece... Talvez seja por ser tudo real aqui dentro.

quinta-feira, 10 de março de 2016

Reanimação


Sentes a tua pele abrir, dos pedaços de carne que estão agora separados por um rio de lágrimas vermelhas. Dói como nunca antes doeu, talvez seja por saberes que ou era desta ou era nunca. Podias ter ficado em standby, esperado mais uns tempos até dar resultado, mas a impaciência pela verdade levou a melhor. Podias ter ainda escolhido anestesia geral, mas gostas de sentir quando te tocam o coração. Mas, desta vez, desta vez não sabe bem, não são festas de recuperação. São choques de morte.

quarta-feira, 2 de março de 2016

Navegar


Atravessei meio mundo, ultrapassei marés, ventos e tempestades. Agora navego por outros mares. Não esperavas isto, pois não? Não tão cedo, eu sei. Mas não faria sentido que esperasses. Não quero a tua tristeza. Não quero o teu olhar triste. Há muita, muita coisa que não te disse. Muita coisa que nunca te direi. Mas não temas. Eu nunca temi estar ao teu lado. Mas já não estaria mesmo que pudesse. Nunca temi estar ao teu lado, sabes o que é isso? Não temermos o maior desafio que a vida pode fazer? Já não te choro. Já não choro a tua ausência. Porque sei, com todas as certezas que algum dia tive, que se fosse para ser, tinhas atravessado o outro meio mundo, tinhas ultrapassado também as tempestades, para podermos, para sempre, estar lado a lado.