
Somos uma manta de retalhos. Sorrimos e coexistimos. Podem até existir palavras trocadas e momentos partilhados. Podemos, quem sabe, descobrir alguém de quem gostamos, muito, talvez. Aparentemente tudo está bem e o mundo é perfeito. Mas a nossa manta é feita de retalhos. Cada um sofre para dentro, para si. Mostra um sorriso falso que ninguém interpreta como tal porque ninguém conhece o suficiente. Cada qual tem a sua história e quase ninguém a conheces e quase ninguém a viu. Veio de longe, ou talvez de perto. Não importa. Vieram de mundos distintos, de universos distantes. E um e outro representam apenas pedaços. Pedaços que não encaixam. Não passamos de pequenas partes perdidas do que foi, num outro sítio, a uma outra hora, uma grande e quente manta de lã. E aqui estamos. Ali estamos. Perdidos em nós mesmos. Desejando secretamente que o tempo volte atrás. Juntos não somos mais que restos de uma perfeição de outrora cosida à pressa por homens desajeitados. E nós? Nós não queremos saber. É a obrigação que manda, não o coração. Esse está longe. Muito longe. Perto, muito perto do que fomos antes. Com quem fomos antes a mais perfeitas das mantas.