terça-feira, 27 de fevereiro de 2024

Retalhos


Somos uma manta de retalhos. Sorrimos e coexistimos. Podem até existir palavras trocadas e momentos partilhados. Podemos, quem sabe, descobrir alguém de quem gostamos, muito, talvez. Aparentemente tudo está bem e o mundo é perfeito. Mas a nossa manta é feita de retalhos. Cada um sofre para dentro, para si. Mostra um sorriso falso que ninguém interpreta como tal porque ninguém conhece o suficiente. Cada qual tem a sua história e quase ninguém a conheces e quase ninguém a viu. Veio de longe, ou talvez de perto. Não importa. Vieram de mundos distintos, de universos distantes. E um e outro representam apenas pedaços. Pedaços que não encaixam. Não passamos de pequenas partes perdidas do que foi, num outro sítio, a uma outra hora, uma grande e quente manta de lã. E aqui estamos. Ali estamos. Perdidos em nós mesmos. Desejando secretamente que o tempo volte atrás. Juntos não somos mais que restos de uma perfeição de outrora cosida à pressa por homens desajeitados. E nós? Nós não queremos saber. É a obrigação que manda, não o coração. Esse está longe. Muito longe. Perto, muito perto do que fomos antes. Com quem fomos antes a mais perfeitas das mantas.

sábado, 17 de fevereiro de 2024

Pontos, Letras, Folhas & Algo


Sou um ponto. Um ponto escondido, curioso mas disperso. Que se afasta e se repõe no lugar mais correto. Sou uma letra, entre milhões de palavras. Entre textos intermináveis do eu de muita gente. Uma letra vazia, mas que até pode ser importante. Sou uma folha, ora preenchida das mais quantas letras e pontos, ora vazia, límpida e singela. Sou um aglomerado de papéis, desorganizados e confusos. Atentos, perspicazes. Maléficos e impiedosos. Sou algo. Um rasto de sonhos. Felizes e ausentes.

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2024

Player One


O dia, que horas antes era cintilante e fabuloso, escureceu. Não se via ninguém na rua. Os carros eram escassos. O silêncio era totalmente ensurdecedor. Apenas os postes de eletricidade iluminavam aquele lugar onde decorria a minha vida. E eu, um dos poucos seres vivos que ali estava, no meio da escuridão. O ar gélido arrefecia-me os braços, os lábios começavam a dar os primeiros sinais de desidratação e o meu corpo enquadrava-se numa melodia onde a orquestra estava afinada e coordenada em relação ao frio. Já não sinto o que sentia. Vivo um presente completamente fantástico, e espero no futuro não dizer mal do que estou a viver agora. Certamente não o direi, mas tenho a perfeita noção que a vida é composta por altos e baixos, uma inconstante total onde vagueamos por onde nos levam, por onde queremos ir, por onde nos deixam e por onde somos capazes. No fundo, é um teste à nossa integridade e inteligência. Um jogo real onde jogamos com utensílios, sentimentos e pessoas reais.