quarta-feira, 24 de setembro de 2025

Whispers


Dificilmente se explica. Desconheço-me desde que nasci e sou praticamente um fantasma, sem interesse. Gostava de me ter reconhecido há mais tempo, mas só não vê quem não quer e certamente me ceguei com grande impacto. Saio de casa à pressa e vou ao supermercado comprar pão, alimento para sobreviver mais uma tarde. Sou sempre eu, e mais alguém que não se vê, a quem apeteceu umas bolachas ou água. Sussurram-me ao ouvido que fujo das mãos, que vou sempre mais à frente no caminho. Em avanço estive e foi sempre um defeito meu. Mas está sempre tudo bem para mim, com esta incrível estabilidade que aguenta o meu interior instável. Nem eu sei a sorte que tenho, nem eu sei. E isto tudo porque sou criança. E as crianças não são de complicações. Se não fosse isso, não me aguentaria.

domingo, 14 de setembro de 2025

Tinta Esbatida


Hoje saciei a vontade de há muito. Fui desenhando, entre soluços, pequenas palavras, construindo frases repletas de pudor. Cheguei até a ter receio de reler tudo o que tinha escrito, talvez tenha sido essa a razão porque não o fiz. Despedi-me de ti, não da maneira mais pertinente porque me mostrei fraco e, enquanto os meus dedos te desenhavam eu olhava a rua, estava a chover. Abri a gasta porta de madeira e descalço, com a carta de despedida na mão, fui sentir cada gota de água deslizar sobre a minha pele demasiado quente. As palavras entrelaçavam-se umas com as outras, diluídas pela chuva. Peguei num pouco de tinta dessa inútil carta e deixei que ela se incorporasse na minha face molhada. Nunca me vou conseguir despedir de ti.

quinta-feira, 4 de setembro de 2025

Mudança de Tom


Hoje começo a emitir noutra frequência. Vou mudar por inteiro a temática do meu programa que durante este ano falou do que não interessava, falou daquilo em que nem se devia pensar, daquilo que já estava morto mesmo antes de nascer. Não me venham falar de erros e esperanças de mudança, já chega de felicidades invisíveis, de proteger aquilo que nos mata, de sermos aquilo que nunca iremos ser. Não se nota que temos o mundo contra nós? Não se vê que temos uma muralha de pessoas e factos contra nós? Se não vêem, vejo eu, cada vez mais perto de mim, aproximando-se sem dó nem piedade e desvendando a minha fragilidade - tu.