sexta-feira, 28 de outubro de 2016

As Incógnitas


Há coisas que serão sempre uma incógnita. Há coisas que por mais que tentemos descodificar ficarão apenas pela tentativa falhada de não o conseguirmos fazer. E há histórias que serão continuamente um ciclo, até deixarem de o ser. Desejamos saber o que será daquilo que no passado não chegou a ser, desejamos recomeçar a história e escrever um novo final, desejamos atravessar os desertos e contruir um paraíso. E, por momentos acreditamos que é possível, que é o caminho. Acreditamos e construímos um sonho real. Mas, num instante, tudo muda e entramos de novo no ciclo vicioso. Tal e qual como antes. Tal e qual, mas desta vez deixando marcas ainda mais fortes e difíceis de curar. Apenas fica a certeza que serão uma incógnita, tal como desde o dia em que a história começou.

quinta-feira, 20 de outubro de 2016

Color Blindness


A vida é injusta. É um facto. Não há a mínima necessidade de o contornar. Fazemos planos, desde pequenos, traçamos linhas com um pincel delicado, vamos ser astronautas, bombeiros, professores. E de repente, esse mesmo pincel delicado borra a pintura. Desfaz tudo. Manda-nos ser engenheiros espaciais e nunca sentir a gravidade zero. Manda-nos apagar o fogão e evitar pagar a conta dos bombeiros e remodelação da cozinha. Manda-nos aprender a desdenhar os professores porque sempre apanhamos os mais complicados a ensinar. Manda-nos ter uma profissão segura, e deixar a arte para um dia por semana, lá no teatro mais perto e se houver tempo.
A este quadro digno de ser queimado, podemos juntar muitas mais partidas da vida, muitos mais pincéis delicados são capazes de nos atraiçoar, naquele instante onde misturamos o azul e o magenta, metemos demasiado azul e o quadro fica escuro. A vida não tem brilho, não é bonita. Preferia-a a preto e branco. Peço que seja a preto e branco. Mas já isso é demais. Ela mete mais cores ao barulho. Porque ela é assim. Impossível de contornar sem sair dos seus apertados riscos.

quarta-feira, 12 de outubro de 2016

A Única Oportunidade


Ele queria morrer. Queria cair ao chão e nunca mais se levantar. Pergunta-se porquê, porquê a razão de o tratarem assim. Tratarem-no como se ele não fosse nada. Ele grita porque não quer realmente morrer, mas a vontade é de ficar sem sentimentos, sem qualquer tipo de moção, tornar-se naquele homem que não sente nada. Deram-lhe tantas promessas, tantos sonhos, tantas vitórias que iria conseguir ganhar, mas só o fizeram iludir de falsas esperanças, de falsos sorrisos, de sonhos que nunca teve.
Não tem a vida toda à sua frente, tem somente uma vida toda à sua frente e um medo profundo de não a conseguir ver. E isso consome-o noite e dia.

terça-feira, 4 de outubro de 2016

Another Game


Espero que voltes, que entres por aquela porta e digas que está tudo bem, enquanto eu finjo que bem estou também, pois suficiente foi o tempo de se secarem as lágrimas que sem te aperceberes deixaste que caíssem, uma por uma.
E assim será quando chegares, um jogo de figuras em que eu interpreto o papel de dono da felicidade enquanto tu crês que essa é a minha pele, ou será que, tal como eu, finges? Serás tu tão ator quanto eu e, afinal fazemos juntos, um jogo duplo? Porque parece não perceberes o que te digo sem palavras?
O pior ponto (quase) sem retorno é aquele em que, em voz ténue, alguém te pergunta "Quem és tu?". Tudo porque não conseguiste lutar contra o que te fazia deixar de ser tu mesmo.