terça-feira, 29 de dezembro de 2020

Fome de Lobo


Estás pronta para atacar. Cravar os dentes em pele pálida e tenra. Espreitas por entre as árvores. Nem dou por ela que estou a ser seguido, estou apenas a percorrer o meu caminho. Começo a sentir-me agoniado, olho para trás, tropeço e caio redondo no chão. Dizes para não ter medo, para não duvidar. Para aceitar a tua mão, que estás apenas a tentar ajudar-me. Mas nasceste para ser mentirosa. Sabes bem os jogos que jogas e todas as palavras que dizes, todas as vidas que tiras, são obras do teu querer, nada mais do que a fome de um lobo. E por tudo o que acontecer, queres-me culpar só a mim.

domingo, 20 de dezembro de 2020

Tinta Permanente


Pouco me importa as tatuagens que tenhas cravadas e desenhadas no teu corpo, nem o que elas representam para ti. Só te peço uma coisa. Nunca escrevas o meu nome, ou coloques uma fotografia minha no teu corpo. Quero apenas que me tenhas gravado, nas paredes do teu coração, com as cores do interior da melância.

sexta-feira, 11 de dezembro de 2020

Eye Contact


Olho-te nos olhos e digo-te que está tudo bem. Que choveu mas não molhei os pés. Que faz vento, mas não me despenteei. Que esteve frio, mas eu não andei pela rua. Que algumas pessoas faltaram, mas tinham compromissos inadiáveis. Que não estou a sorrir, mas é do cansaço.
Olho-te nos olhos e minto-te, na ânsia que um dia me consideres digno de ti. Que aches que também eu fui dotado de um bocadinho da perfeição dos teus genes. Faço da minha vida um conto idílico e tento que não descubras que não sorrio porque não olhas para mim como olhas para outro.
Olho-te nos olhos enquanto me convenço que um dia todo este suplício terá um fim, que um dia não terei de fingir ser um clone e serei aceite à mesma nessa sala. Projeto no futuro o dia em que entrarei pela porta com os pés encharcados, o cabelo despenteado, a tremer de frio, com a expressão de que nada correu bem, e terei à minha espera um abraço e um beijo teu, e é esse pensamento que me dá alento.
Olho-te nos olhos na esperança que um dia gostes de mim.

terça-feira, 1 de dezembro de 2020

Full Moon


Todas as noites te sentas, encolhida no sofá, à espera de um abraço. Todas as noites sozinha, falas com a lua e as estrelas. Todas as noites te oiço, qual pássaro chilreando, à procura de um ombro amigo.
Mas esta noite, quero-me juntar a ti, quero-me encolher no teu sofá e recostar o teu corpo ao meu com um abraço apertado. Depois vamos falar os dois, com a lua e as estrelas, e o nosso chilrear, será uma melodia cega. Esta noite, queria dar-te um abraço, com sabor a lua cheia.

domingo, 22 de novembro de 2020

4 Estações


Ao pedirem para escrever ou desenhar algo sobre nós, que nos identifique, é sempre complicado... porque é como se isso nos fizesse escrever parte da nossa alma e mostrá-la ao mundo. É que, para falar de nós, nenhuma palavra chega. Falar de nós é como falar das estações do ano.
É que nas nossas estações, há sempre alturas em que as nossas folhas caem, escurecem. Perdemos todas as nossas folhas e os ramos ficam secos, demasiado frágeis e vulneráveis a mãos alheias. Enquanto isso, tornámo-nos pessoas diferentes, estranhas, frias. Gelámos por dentro, sucumbimos em ventos e chuva que ninguém parece notar. Tornámo-nos tempestades de nós mesmos, chegámos ao mais fundo, descarrilámos. Mudámos a direção do comboio e desviámos a próxima paragem.
Então renascemos. Renascemos porque entendemos que precisamos renascer, refazer-nos por dentro. Deixar que a nossa vida volte a florir. Voltámos a encarar a vida de olhos abertos e força renovada. Voltámos a sorrir, descobrimos que em nós também há música. Sentimo-nos quentes por dentro, de olhos brilhantes e sorrisos rasgados. Despidos de quem fomos, vestimo-nos de roupas leves.
Então, enfim, chegámos à estação pretendida. O comboio pára. Saímos. À nossa espera, encontrámos as nossas pessoas, aquelas que saberíamos que estariam lá. Que estão sempre lá, em todas as nossas quatro estações. Pessoas para a vida inteira.

sexta-feira, 13 de novembro de 2020

Free Hugs


As pessoas passam a correr na nossa vida. Mas os olhares vão recordar sempre todas as passagens. A recordação é lenta. A tristeza é feroz. A saudade teima em não passar.
Mentalidades idênticas, futuros cruzados, luas à espera de brilhar. São poucos os que entendem um olhar que pede um abraço, e ainda menos aqueles que retribuem com tudo o que têm para dar.

quarta-feira, 4 de novembro de 2020

Hardness


É duro de mais para alguém continuar com a sensação de que foi trocado. É duro de mais para alguém saber que não teve qualidades suficientes ficar no coração do outro. É duro de mais para alguém sentir que não foi suficientemente bom para que o outro sentisse saudades. É duro de mais para alguém saber que por mais palavras que lhe dissesse, as de outras pessoas seriam sempre mais importantes e aquelas que tomaria por mais verdadeiras. É duro de mais para alguém saber que outras pessoas a conquistaram e a tiveram só para elas e que esse alguém não conseguiu isso, não conseguiu fazer com que só tivesse olhos para si.
Mas o que mais custa a alguém é saber que continua a ter de negar isso perante outra pessoa, o que mais custa a alguém agora é ter consciência de que deseja como nunca e saber que não pode fazer nada porque essa pessoa não está livre para conquistas. Portanto, resta-lhe continuar a viver na dor de um amor escondido e protegido, e esperar que ele se desvaneça para o explicar. Se algum dia ele se desvanecer.

segunda-feira, 26 de outubro de 2020

Esboço


Como sempre acabámos aos beijos, no carro, no parque, falta apenas no meio da rua, comigo a segurar-te a mão contra o meu peito, e tu de perna levantada para trás. Amanhã voltarás para mim, espero, e irei acolher-te de novo no meu peito, aguardar por um sinal teu. Vamos sentar-nos novamente na esplanada e ficar lá, a discutir sobre como nos fazemos tão bem um ao outro. Encontrar os nossos sonhos, tirar os pés do chão e encontrar a segunda oportunidade que nos leva às estrelas. Desenhar em papel, com lápis e caneta, os pormenores, os muros, as janelas, os quartos e as pedras que nos fazem aos dois.

sábado, 17 de outubro de 2020

Emoções Paradas


Sabes viver contida nesse teu mundo obscuro e negas todas as obscenidades que te perfuram o pensamento. Viver abatida, acanhada e pouco intrometida é deitar fora todas as oportunidades que a vida te dá. Ela generosa, tu pouco consciente dos teus atos antipáticos. Viver a vida não consiste no desprezo contido em cada ato. É usufruir de tudo aquilo que te faz viver bem. O passado fica para trás, porém, é o motor que faz com que a nossa vida ande para a frente, ou fique literalmente parada no tempo.

sexta-feira, 9 de outubro de 2020

Voltar


Sentado numa fria e desconfortável cadeira de metal, esperava. Pedi um sumo de laranja que me punham agora sobre a mesa. O meu olhar não se desviou um milímetro sequer. Tenho uns óculos grandes que me permitiam olhar o sol sem medos. Aquele quente sol de inverno que sabe lindamente. Por isso, deixei-o acariciar-me o rosto, ganhando um tom luminoso.
Com o copo alto e frio entre as mãos, a minha mente divaga a uma velocidade alucinante. Levo o copo aos lábios e beberico. Momentos como este despertam-me os sentidos. Saboreio mais, ouço mais e vejo mais. Chego mesmo a sentir mais. Internamente, é claro. Abstraio-me do mundo. Esqueço-me que a Terra gira 24 sob 24 horas. E então deixo a mente voar. E como ela voa! Recostei-me na cadeira e aqueci as mãos nas calças de ganga escura. Senti no ar um cheiro familiar. Sorri e deixei-me embalar pelas memórias.

quarta-feira, 30 de setembro de 2020

Sopa de Letras


Tenho a paixão. A ânsia de te rever de novo em frente aos meus olhos. Deslumbrante como sempre. O sonho, de me tornar imortal, sem o viver para sempre. Tarefa excitante e demorada. Não posso abrir as asas e voar para o topo onde estão todos os outros. Adorar ter cada letra, em cada célula do meu corpo. Ter cada lágrima no canto do olho, cada palavra na parte de trás de um livro. Ter sucesso e não ser famoso. Mas nada sou. Nada devo ter que me ponha num pulo onde a paixão das letras nos leva. Não mereço porque, não escrevo nada de mais, nada que me torne único e especial.
Eu, não sou, um escritor. Sou apenas uma pessoa, sem coração, que o enche de palavras, faz com que ganhe forma e personalidade, sem realmente ele existir. São faíscas que o ligam. O amor, é só mais uma forma de o pôr a trabalhar. Deixo-o viver nos prados do fundo da casa. Faço-o ser assim. Existe, mas desabita deste mundo real. Como invento sentimentos, são apenas esses que ele sente.
Eu não sou apenas um escritor...

domingo, 20 de setembro de 2020

Amarrados


O que é a amizade? O amor? O ódio? Que linha ténue distingue o que sentimos do que queremos mas não nos é necessário? Que forma horrenda é esta de nos prendermos ao passado, àquilo que não nos significa nada, não nos completa nem ajuda, apenas nos causa saudades desnecessárias e incompreensíveis?
Atormenta-me o futuro e incomoda-me o presente, mas, enquanto estiver no passado, acorrentam-se-me os pés num caminho já por ti esborratado.

quinta-feira, 10 de setembro de 2020

Palavras Vazias


Tu sabes que eu tinha dito que não ia embora, no entanto, tudo o que consegues pensar, é se não haverá um dia em que eventualmente encontras uma outra casa, talvez uma que te faça melhor que eu. Já te disseram que as promessas são feitas apenas para nos encher o coração mas, se não acreditarmos nelas como sobrevivemos nós ao vazio?

domingo, 30 de agosto de 2020

Continuo à Espera


Não sou de dizer que amo, ou que adoro, nem sequer que gosto. De facto, sempre achei que as palavras às vezes também estavam a mais, por isso ser-me sempre tão difícil dizer o que sinto a quem sinto. Sempre pensei que os olhos brilhantes, a respiração acelerada e a leve taquicardia mostravam tudo. Por isso, peço desculpa, mas não gosto de pessoas que se afastam porque não ouvem um "gosto de ti" todos os dias, não gosto que isso seja preciso para se lembrarem de mim. Por isso, afasto-me eu, recolho-me à sombra onde tanta vez me encontro, e espero. Espero que sintam que as palavras nem sempre explicam sentimentos.

quarta-feira, 19 de agosto de 2020

Wounds


Sabes, todos os dias penso na dor da tua perda. Eu sei que continuas comigo, mas não da maneira que desejei. Não é da maneira que sonhei e muito menos da maneira que o meu coração pede. E cheguei à conclusão que quanto mais penso, mais me dói. Quanto mais me dói, mais gosto de ti. Faz sentido? Cada vez tenho mais certeza de que esta dor e aquele pesadelo me atormentarão eternamente. E a tua imagem, por mais que negue, ficará para sempre manchada nas minhas memórias.

sábado, 8 de agosto de 2020

CopyRight


Hoje soube que a meia página de história chegou ao fim. Peguei na nossa história e escrevi um ponto final. E isso foi o único que acrescentei. Desta vez não importa que tenhas sido tu a ficar com a borracha e que tudo o resto tenha sido escrito a lápis. É que no meu estojo encontrei uma caneta e usei-a para escrever o ponto final. E desta vez não há corretor que nos valha.
É que, sabes, no primeiro instante que olhei para ti, apercebi-me que já nada me doía. Tu já não me doías. É irónico isto das histórias que escrevo, no exato momento em que percebi que não dava, que embora não te tenha deixado partir, já não aceito um retorno, tu quiseste prolongar a história.
Lamento, desta vez a história é só minha e eu não partilho os direitos de autor.

terça-feira, 28 de julho de 2020

Encaixotar


Como se encaixotam por exemplo bolachas, também se podem encaixotar sentimentos? Fechá-los numas saquetas e colocá-los numa caixa, como sentimentos extraviados. Selá-la com a força da dor e colocar numa prateleira inacessível? Tão longe como está esse sentimento e tão alta quanto é essa dor? Podemos?
Não era eu que não te sabia falar, eras tu que não merecias as minhas palavras. A dor é uma lição que eu nunca quis aprender.

sexta-feira, 17 de julho de 2020

Forgiveness


Como pessoas temos a capacidade de filtrar o que é bom e o que é mau. Parece-me a mim que algumas dão mas importância e gravam certos maus comportamentos ou atitudes em detrimento do que é bom, do que faz bem.
Diferentes tipos de pessoas. Há aquelas que não admitem falhas e não perdoam. Há aquelas que guardam rancor. Há aquelas que são tão fracas que choram e perdem porque têm medo. Há aquelas que dão oportunidades, atrás de oportunidades. Há aquelas que sabem bem o que querem, sabem perdoar mas também sabem quem são, o que são e o que merecem e não merecem.
No meu caso em particular, se perdoo? O que é perdoar? É esquecer? Não esqueço. É guardar rancor? Não guardo. Independentemente da pessoa. Acho que é preciso tempo. O tempo acalma a tempestade. É uma linha ténue entre o dar parte fraca e o ser orgulhoso. Grandes são aqueles que a têm bem definida. Posso dizer-vos que o que magoou lá atrás não magoa agora. O que isso significa? Que as pessoas que magoaram antes, têm oportunidades. Acho que isso faz toda a diferença. Às vezes o mau passa. Às vezes o bom fica. Às vezes. E a lição é aprendida.

segunda-feira, 6 de julho de 2020

Um - FairyTales

Vou escolher a dedo, uma pequena estrela do céu. Colocá-la debaixo da tua almofada e esperar que venha a fada das estrelas e te dê o sorriso mais bonito do mundo. Em vez de dinheiro, como acontece com todos os dentes que colocas debaixo da almofada, para que a fada dos dentes, venha à noite quando à noite já dormes, e os troque por moedas de ouro. Não irá faltar um dia, que não me mostres o teu sorriso.

quinta-feira, 25 de junho de 2020

Mala de Porão


Essa vida que foi minha, foi tua e agora, não o é, essa, que já nem trato por esta por não a sentir, está a dar cabo de mim. Quando queres voltar, sem bater à porta, sem trazer nada a não seres tu porque com o contigo vem o meu teu. Quando queres voltar e dizes que desta vez vens para ficar. E ficas! Nesse dia não fico eu. Ponderei levar o teu amor na minha mala de viagem. Mas depois pensei: de que me serve uma mala vazia?

domingo, 14 de junho de 2020

Queimaduras


Sou como um limão. Unicolor, consistente. Com certos feixes de luz e reflexos espelhados. De sabor forte e digestão lenta. Acidez e amargura apenas sentidas num primeiro contacto. Tu, tu és como um aquecedor a gás: transmites-me um calor falso. O teu gás não acaba, nem eu preciso de mudar a botija do teu calor. Esse quente secou-me as lágrimas mas não me calou mais os protestos. Aconcheguei-me no teu calor mas queimaste-me. Esfriei a ferida com água gelada e nunca mais adormeci. Agora fico à tua frente, com o meu sangue a delinear a distância de segurança que deve haver entre nós, e nunca mais adormeci.

quarta-feira, 3 de junho de 2020

Diário do Mundo


Às vezes pensamos que nada vale a pena. Temos o cérebro programado e todos os instintos ajudam-no a pensar que na vida tudo é fracasso e as raras exceções são o nosso auge de felicidade. Pensava assim. Ligava-te porque achava que me dava forças para enfrentar o resto do tempo até à vez seguinte. Por mim dormia contigo e não saía mais da cama até me expulsares, mas foste tu que me ensinaste a interpretar regras e a cumpri-las sem desdém. Achava que sabia ler o teu coração e isso fazia com que me apaixonasse cada vez mais por ti. Achava que da tua boca era incapaz de sair qualquer palavra para me difamar. Achava que os teus olhos que me percorriam o corpo eram bons demais para que um dia fizessem os meus chorar. Infelizmente, está escrito no diário do mundo que as desilusões surgem em cenários como estes. O que poderia fazer mais?

terça-feira, 26 de maio de 2020

Postcards


Os correios estão fechados. Já nada posso fazer, se não estar sentado com a carta na mão a barafustar aos três mares e aos sete ventos, para que as minhas palavras consigam percorrer a distância que existe entre nós. Mascarava a dor, o desejo e a vontade, mascarava tudo, pelo menos, á tua frente. Talvez eu tente, talvez tu queiras. E são os talvez que me mantêm na esperança eterna que ainda guardo. Mas são essas mesmas esperas que não me deixam viver, porque quando acordo e quero que tudo corra bem, o consciente encarrega-se de recordar que não está.

domingo, 17 de maio de 2020

Construir Castelos


Se o meu coração falasse, contar-te-ia mil e uma histórias. A tua face que tanto quero percorrer, veria sinais do tempo, marcada pelos dedos que tanto a mimaram. Sim, sou eu, que te posso oferecer palavras amarelas, roubadas a um arco-irís.
Esse sorriso, esse sorriso que me beija o coração palpitante, senhor que me mostra que tudo é tão maior. Olha para isto, para aquilo, para hoje, para amanhã, para sempre... é tudo tão pouco para nós.
Fica comigo, fica. Vejo tanta dor nesses olhos. Continuas a cair. Deixa-me ser aquele que te abraça o coração. Dá-me a mão. Passear contigo de mão dada seria o mesmo que construir um castelo só com uma mão.

sábado, 9 de maio de 2020

Interrogatório


Meu coração, já viste como me deste a volta? Já viste como em poucos dias tornaste o meu sorriso em lágrimas e das lágrimas não me deste o sorriso? Já viste como me consegues tão bem dominar quando queres, e quando eu quero nada consigo fazer de ti? Rastejo enquanto tu sangras, choro enquanto tu esperas, relembro enquanto tu bates. O que sei hoje, é que poucas são as tuas cicatrizes, pois conseguiste abrir todas as tuas feridas, sem fazer voltar o motivo delas. Sei que te questionas, meu coração, tão repetida e amargamente quanto eu: quando voltas, meu amor?

quarta-feira, 29 de abril de 2020

Como Água no Deserto


Uns dizem que isto é normal. É da pressão, do stress, do cansaço, do tempo, da vida. Desculpas é o que não falta. Conselhos são dados sem serem pedidos. Tudo é passageiro. Até as pessoas que dão conselhos, a maioria evapora-se no instante seguinte.
Tempo de vida que perdi. E perdi-o porque não sorri. Ou não tanto quanto devia. Não brinquei, não descansei, não me diverti, não fui eu. Ou então fui mais eu.
Mas tudo faz parte. Até dias como hoje. Dias em que se chora, se desespera. Em que se quer desistir. Em que se põe em causa um sonho, uma vida, esforço e trabalho que vemos mandado ao ar como se fossem confettis. A verdade é que isso aconteceu. em que fui eu e o meu eu é frágil e também se desfaz. Também sofre e também desespera. Finais que assustam, por norma. Mas, este sabe a água no meio de um deserto. E anseio por ele. Porque no final de contas não posso esperar nada dos outros, quando os outros esperam tudo de mim.

domingo, 19 de abril de 2020

Ensurdecedor


Hoje deixa-me ficar contigo silêncio. Eu, um débil humano, quero percorrer esta noite o caminho do silêncio. eu que sou tão débil por ser humano procuro a grandiosidade do silêncio, porque descobri que no silêncio, posso esperar que me digas tudo o que tenho para escutar no nada que posso ouvir. Vem silêncio, porque esta noite eu preciso de gotejar a minha alma e preciso da tua grandiosidade para me limpar desta sujidade. Choro gotas sujas. Tão sujas como o que corrompe o silêncio. O silêncio é o único que não pode minar a verdade, porque não diz nada. E eu hoje não quero saber nada, nada mais do que este silêncio.

quinta-feira, 9 de abril de 2020

Apelo


Quem é um escritor sem os seus fãs? É como um barco sem vela, um piano sem teclas. Não lhe soa bem a melodia, faltam os aplausos, falta ser sabido. Não se exaltem os escritores, inibam-se! Não criem nada, é mais desses que o mundo precisa. Não escrevam, não inovem, façam mais do mesmo e rotulem-se de famosos. São esses que não vivem sem fãs. Pois o bom navegador saberá controlar o seu barco, e o bom pianista trautear a melhor música. Chega de amor, chega disto tudo. O mundo não precisa da felicidade, pois foi na miséria que nasceu a inovação.
Escondam-se, protejam-se, continuem desconhecidos, permaneçam nas sombras. Pois os melhores escritores só serão reconhecidos depois de mortos. Eu não escrevo para ser escritor. Mas, no fim, espero tê-lo conseguido ser.

segunda-feira, 30 de março de 2020

60 Segundos


Cada minuto de cada momento, soltam-se lágrimas, soltam-se por saberem que o seu tempo se esgotou e mais nenhum minuto terão para nos saciar os corações que nos palpitam dentro dos peitos nus e frios. Coloco as mãos, tentando aquecê-lo, acalmá-lo da falta que tem de ti. Da escassez que o faz sofrer, por ser jovem, cego pelo amor que um dia o irá trair com um grande sorriso nos lábios.
Às vezes as palavras não passam disso mesmo: um vazio que pretende representar um todo. São mentira. Por vezes é preferível o silêncio. E a verdade.

sexta-feira, 20 de março de 2020

Tapete Rolante


Tudo passa à minha frente, tudo aquilo com que sonhei, tudo passa de repente, tudo aquilo com que vou sonhar. Tudo passa tão depressa, tudo impossível de agarrar. E então tudo passa, e eu estico o braço, tento agarrar o que é do meu coração, mas tudo passa. E eu não!

terça-feira, 10 de março de 2020

Encarar de Frente


Às vezes temos vontade de chorar. De chorar por ter medo do que não conseguimos controlar. Medo porque sabemos que algo de mal irá acontecer e não sabemos o que é. De tantas coisas que já aconteceram, sabemos que algo maior está para vir e não nos confortámos ao saber isso. Podemos parar de andar e olhar à volta. Podemos até olhar para as estrelas à noite, sozinhos, mas sabemos que algo irá cair em cima de nós e será o fim. Ou então, é apenas uma coisa boa, que achámos que seja apenas má. Então talvez seja só preocupação da nossa parte.
Eu gostava de fugir. Não de fugir dos problemas, mas, pelo menos ficar de lado quando eles estiverem a vir na minha direção. Sei bem que terei de os enfrentar algum dia. Porque se os deixar passar, estes, irão estar constantemente nos meus ombros, até que eu, decida enfrentar esses medos, esses futuros incertos e estranhos e assim lhes sorria, depois de lhes ter dado o primeiro murro.
Irá correr tudo bem. Até lá, o tempo só saberá soprar num só sentido. E no fim, ainda quero acreditar que sairei a sorrir.

sábado, 29 de fevereiro de 2020

Pesadelos


Havia um vulto e estava de costas. Ele recostou a cabeça nas costas e rodeou o corpo alto. Inclinou-se para o lado, elevando-se, em bicos de pés. Estica-se o mais que pode, quer beijá-la. Mas não lhe consegue ver o rosto. Estica-se mais. Começa a ficar angustiado. E puff, ela esfuma-se. Ele acorda à beira do choro. Lava a cara. É mais um dia, cabe-lhe a ele que seja um bom dia.

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2020

Another Brick in the Wall


Voltei a escrever depois de muito tempo de ausência. Tirei o sangue que derramei um dia em lágrimas por ti. Muitas vezes me desiludi, muitas vezes foste o que eu menos queria, tanto que um dia perdi a imensa vontade que outrora tinha de te agarrar. E senti-me na necessidade de me refugiar, porque tudo o que diria iria parecer em vão. Criei uma muralha em torno do meu coração e não deixava ninguém entrar. Depois de tanto tempo fechado, tentei trepá-la e magoei-me em todas as farpas que as tábuas que fazia de escada portavam, encostado do lado de dentro daquela pedra fria, sem saber quem estaria do outro lado. Encostei a minha mão procurando a de alguém e ela não apareceu. Não há um fundo de uma porta, é um pedaço de pedra, um muro oval e tão cruel. Estou cá dentro e preferi ficar cá dentro. E fiz de mim um prisioneiro sem paredes. Foste embora e dessa forma impedi que levasses o meu coração contigo. E fui ficando, porque aquilo que me fazia querer sair sempre foi sendo mais fraco do que aquilo que me fazia ficar. Sempre foste o peso máximo na minha balança, o meu coração inclinava-se sempre para ti. Tinha visto em ti aquilo que outrora não tinha visto em mais ninguém. Mas no final, foi um erro, um erro ortográfico tão grande na escrita do meu coração. Mas, com o tempo, fui construindo as ferramentas necessárias para me ajudar a sair, derrubei os muros, as pedras frias ficaram no chão e o meu coração começou a sentir o calor novamente.

terça-feira, 11 de fevereiro de 2020

Valentins


Não é a indiferença que me dói, mas sim a diferença com que me tratas. Mas isto acaba por ser redundante, a diferença na indiferença.
Quando se dá uma especial atenção ao dia dos namorados, é sinal de que o amor acabou.

sexta-feira, 31 de janeiro de 2020

Guerreiro


Acho que nos últimos dias me apercebi cada vez melhor que nunca consegui chegar ao auge de um sentimento como o que reside por ti, tanto que, desde que o queiras como eu, eu vou estar aqui, a pertencer-te, sem ser teu, até tudo ficar bem, para depois poder contar aos netos que na vida existem muitas lutas, mas que quando há bons guerreiros podem perder-se lutas mas nunca as batalhas.

segunda-feira, 20 de janeiro de 2020

Ticking Clocks


Não preciso de relógio. Não necessito dele quando passo as tardes contigo. O que menos quero é olhar para ele, saber-lhe as horas, decorar-lhe os números e ficar com eles na cabeça durante o resto do dia. Desanimo ao saber que as horas contigo estão perto do final. Acalma esta estranha sensação que me cresce no estômago, cada vez que o relógio de parede, dá as horas. Cala para sempre o tic-tac. Embrulha o tempo. Congela e deixa-te ficar. Começa neste momento uma guerra entre nós dois. Uma guerra de amores e caprichos. De vontades e loucuras.

sexta-feira, 10 de janeiro de 2020

Segredo Bem Guardado


Caminhavas pela sala, pelos corredores, de cabelo solto e olhar de arraso. Sem reparares que te observava. Sem reparares nas minhas tentativas de aproximação dissimulada ou como admirava os teus olhos brilhantes e o jeito do teu sorriso. Caminhavas com a tua ingenuidade de não saberes o quão importante és, sem nunca reparares que, hoje, me começas a ser tudo.