quinta-feira, 25 de agosto de 2016

O que Realmente Importa


Escrevo. E apago. Perdi-me de todos os caminhos para a inspiração. O que é o mesmo que dizer que me perdi do amor. Ou no amor. Perdi-me tanto que perdi o sentido dele. Aprendi a gostar, sem amar. Aprendi a sentir desejo, sem coração. Aprendi a sentir fogo, sem chama. Aprendi a chorar, sem tristeza. Aprendi a querer, sem lutar.
Talvez a vida seja mais do que isso. Talvez um dia encontre por aí quem me devolva a chama e o coração e a força. A tristeza dispenso-a.
Com o tempo, percebi que estar apaixonado é bom. Mas ser livre de alma e de coração pode ser ainda melhor. Percebi que ter alguém na minha vida não tem de significar andar de mãos dadas pela rua, não tem de significar dizer a todo o mundo que há alguém que me faz feliz.
Mas, acima de tudo, percebi que a felicidade está no nosso ser. Está na nossa força e no nosso lar. Está nos momentos com a nossa família e com os nossos amigos. Está dentro de nós. No que somos e vamos sendo. Ao lado de quem não nos perdeu nem nos faz perder.

quarta-feira, 17 de agosto de 2016

Apanhado nas Teias


Onde está a minha luz? Onde está a alegria que devia ser contagiante? Acho que deixei que tu tivesses esse efeito em mim, essa vontade de viver que me inspira. são paredes como as que foram construídas à minha volta que me impedem de te ver melhor, são as paredes que construí que me dizem quem sou, que me dizem que dor é esta que sinto no coração. Poderia dizer que és a doença, que és ao mesmo tempo a vacina para o meu mal. Apaixonei-me pelo teu pecado, envolveste-me numa teia da qual me foi difícil endireitar, principalmente para sair.
Já não tenho nenhum lugar para me esconder, apenas me resta esta escuridão que me persegue dia e noite, que me invade os sonhos. Perdi-te. A vida segue. O relógio não para. Fomos tudo. Agora nada. E eu, aqui parado, fico calado. Talvez seja apenas isso. Sentir escorrer. Perder.

terça-feira, 9 de agosto de 2016

Por Estranhas Marés


O mar não devia acalmar ninguém. É violência, embate após embate, quebras violentas, força degolando o que é nosso, e tudo é amor. Até o sabor de um beijo molhado se torna negro quando o mundo gira para o lado desconhecido, por cima de muralhas da China e porcelanas inacabadas. Inacabadas porque roemos a vida toda, mas ficamos sempre metade. Há sempre uma cadeira vazia, um suspiro sonoro, um eco vazio, alguém que nos deixa só a sua falta fria. Não há ninguém. Há quanto tempo não há gente no teu mundo?

segunda-feira, 1 de agosto de 2016

Mãos nos Bolsos


Há vontade, eu tenho-a. Aqui, no bolso do casaco. Esqueci-me de que a tinha guardado lá. Ou esqueci-me ou decidi não lhe mexer mais, pelo menos por agora. Caminho lentamente, cabeça baixa, ombros para trás. É inverno, as árvores estão despidas e o nariz gelado. O céu, cinzento, ameaça chuva. Em mim já chove há algum tempo. Não o suficiente, parece-me. E ao mesmo tempo, quero voar. Mas o vento é demasiado forte e eu ainda não tenho asas. Se, por um momento, pusesse a mão no bolso, a vontade tocar-me-ia os dedos e espalhar-se-ia por todo o meu corpo. E o sol viria, se o chamasse.