domingo, 29 de dezembro de 2024

Final de Carreira


És um ponto de interrogação na minha vida. Via-te como alguém gigante que brincava comigo como se fosse uma marioneta, e eu, sempre a manter a postura. Sempre tentei visualizar o mundo de forma a que tu estivesses do meu lado, sempre tentei ver como seria quando a minha carreira de personagem de marioneta acabasse, será que depois do lixo haveria ainda a hipótese de ser recomposto e posto novamente em cena? Mesmo que desta vez numa nova personagem? Abandonaste-me, deixaste-me sem me esclarecer sobre o mundo e os constituintes. Entraste em coma, assim como o mundo, e nós andamos a dar cabo uns dos outros. Onde estás tu? Porque me deixaste? Ou será que nem nunca comigo estiveste realmente?

sexta-feira, 20 de dezembro de 2024

Efeitos Secundários


Já passei por picos, por altos e baixos. Às vezes penso que estou a curar mas isso é um erro. Doenças como tu não se curam assim. Pelo menos estou medicado, sinto menos tonturas e as febres altas são cada vez mais espaçadas. É verdade que ainda cambaleio um pouco, que o nariz se entope, e que me perguntam insistentemente se não quero um chá. Como poderá alguém pensar que me livro de ti através de ervas em água quente. Não sabem de ti, viram por diversas vezes, os meus olhos a brilhar, voz afinada em cantorias. Inventei uma desculpa e desvalorizei-te. Não te dei nome, nem morada nem retrato. Como isso me custou. Porém, não valia a pena. Pessoas como tu não têm nenhuma dessas três coisas e contigo, desde cedo aprendi a amar um amor incógnito.
Às vezes penso que estou a curar. Já nem espero que me ligues. Sei que não o farás. Já nem espero que te encontre. Sei que os nossos relógios nunca se acertaram. Vivemos em tempos diferentes, em épocas distintas. Somos quase um estrato social impossível de se fundir. Se as regras são para se cumprir, não percebo a nossa insolência ao romper com as normais sociais. Viemos de culturas diferentes, está visto que os valores também o são. Às vezes penso que estou a curar mas eu ainda não ultrapassei a vontade de te dar um nome, uma morada e um retrato. Dá vontade, na maior parte das vezes, de amar alguém com identidade.

quarta-feira, 11 de dezembro de 2024

Mixed


Uma das coisas mais bonitas da vida é quando encontras uma pessoa absolutamente fantástica que não faz ideia que o é, e nós decidimos que queremos tentar fazê-la acreditar. O que farias se tropeçasses nos teus sonhos, mas, por essa altura, não os pudesses concretizar? Quando queres algo que nunca antes tiveste, tens que fazer algo que nunca antes fizeste. E eu sempre gostei de desvendar o impossível. O que realmente nos pertence acaba sempre por vir às nossas mãos parar, não é assim?

sábado, 30 de novembro de 2024

Tinta Permanente


Troco as palavras quando te quero escrever, a minha mão direita chateou-se com a caneta e a esquerda nunca soube usá-la. Cambaleando por entre os dedos, ela vai enchendo de riscos e rabiscos o papel. A mão direita irritou-se, também quer ser protagonista. Nada melhor que arrancar violentamente a folha do bloco e amarrotá-la sob o meu olhar indiferente.
Queria escrever-te alguma coisa especial, mas a caneta não deixa, a mão direita não deixa e a mão esquerda nunca soube, o meu olhar permanece assim, indiferente, e eu, permaneço calado. Quando te escrever, gasto blocos de folhas inocentes, que a caneta enche com patetices, ainda antes da mão direita, irada, arrancar e amarrotar sob o meu olhar indiferente.
Podia passar horas a contemplar o teu sorriso e o teu olhar, e aí dizia-te tudo. Dizia tudo sem palavras, que a língua enrola-se quando te quero falar. Dizia-te tudo com um olhar ou um sorriso, dizia-te tudo num silêncio. Podia passar horas para te dizer tudo, se ao menos estivesses aqui.
Largo a caneta e o bloco, coloco a cabeça entre os joelhos e penso em ti.

quarta-feira, 20 de novembro de 2024

Quereres


Já nos quisemos, ainda que por razões opostas e nem sempre moralmente aceites. Já me quiseste, ainda que agora me apagues após inalações profundas que me levaram muito mais do que células e consequentes identidades. Porém, recordo-me da cor escura que vestia quando pegavas em mim e me punhas ao fundo do bolso das calças de ganga. Por vezes continuo a tentar-te, desafiando forças de vontades, desprezo por algo que, de uma forma ou de outra, te ia matando as convicções. O choque e a faísca do nosso encontro fazia-te rir, era a gasolina que te alimentava o gosto pelo jogo que eu me ia cansando de jogar. A minha vida nunca foi um tabuleiro e eu muito menos peças de madeira velha. Mas tu bebias dos meus nervos, fervilhando com a minha personalidade forte e convicta, ciente dos seus objetivos. Tu eras um deles. E adivinha, hoje já não me queres e, o que eu queria de ti, tu decidiste não dar.

domingo, 10 de novembro de 2024

Calor em Dias de Neve


Como sinto saudades desse teu abraço gelado, daqueles profundos em dias de neve. Ainda me lembro do calor harmonioso que fluía entre nós. Naquela manhã fria com o despertar de um ínfimo sol, nada adivinhava o derreter de pegadas que se seguia. Os flocos manchavam o chão cheio de pó e sofrimentos passados, aglomeravam-se em montanhas de obstáculos que sempre deslumbrei. Como anseio pela tua chegada, pelas tuas mão quentes que me aconchegam o coração, pelos teus olhos que me confortam com a verdade, pela tua voz que ecoa no meu peito e me eleva. Os sorrisos com que te deixo, são meros presentes de hoje. Amanhã, espero-te à mesma hora no banco de madeira, protegido da neve, para apenas a podermos admirar.

quarta-feira, 30 de outubro de 2024

Gambling


O jogo invade-me... o corpo, a mente, a alma. É vício que me destrói e quase me mata. O jogo liberta-me, faz-me ser quem eu não sou, quem na verdade gostava e quero ser. Acalma-me, deixa-me respirar quando a vida sufoca. Dá-me força e coragem quando estas me faltam. Alimenta-me quando a fome me vence. Faz-me dizer sim quando o mundo me diz não. O meu jogo eras tu. E agora que tu foste, transformei o meu vício. Será o meu vício a tua simples ausência?

domingo, 20 de outubro de 2024

Sanguessuga


E então ficas especada a olhar para mim tipo sanguessuga. Primeiro decides roubar-me o corpo, ficas colada à minha pele e arrancas-me todos os pedaços de amor que tinha para te dar. Depois continuas com as tuas falinhas mansas até que acabo por me perder nas tuas teias. Não fiques à espera que eu acredite em brancas de neve, e que muito menos vá atrás de ti. Acorda! O príncipe encantado não existe.

quinta-feira, 10 de outubro de 2024

Ferir Susceptibilidades


Clamem o amor eterno, gritem, façam os vossos corações serem ouvidos, lutem por vós e pelos vossos sentimentos, e não lutem por quem amam, e principalmente, por quem dependem. Não lutem por ninguém, mas sim pelo vosso sorriso e pela vossa felicidade. Nunca dêem como certo alguém na vossa vida, pois ter é a pior forma de amar. Por vezes a tristeza torna-se um hábito e a luta a única forma de poderem gostar da vossa própria pessoa, amor próprio que vai perdendo brio a cada dia que passa, a cada falsa palavra de amor que ouvem, a cada rasteira que sofrem. São tantas as pessoas que sofrem por amor. Todos nós acabamos por sofrer desse mal, seja de amor próprio, seja de amor por outrem. Mas não tomem nada como certo, não acreditem num facto só porque ele vos aparece à frente como a verdade, pois a verdade não existe, e transforma-se. Por vezes nunca foi senão uma mentira de cabeça para baixo, fazendo-se passar pela verdade. O amor existe? Existe. Mas para saber amar é preciso sabermos amar-nos a nós próprios primeiro e saber reconhecer limites. Se quiserem lutar por alguém, façam um favor a vocês mesmos e certifiquem-se de que têm amor próprio para o fazer.

segunda-feira, 30 de setembro de 2024

The (Good) Old Times


Carícias face dentro, dedos entre dedos, mãos decididas e risonhas. Sorrisos sobre a mesa e não ouço a tua voz. Não ouço a minha, nem as inúmeras discussões e guerras mundiais tão frequentes no nosso campo de batalha. Suspiro de alívio. Éramos ferrugem persistente, faísca exagerada, a nossa junção chateia e desgasta. Não fomos feitos um para o outro, não dá-mos saldo positivo no balanço ao fim do mês. Somos bons na distância, nas entrelinhas. Somos bons com outros corpos, com outras almas, com outras salivas. Que assim seja, eu e tu, nunca amigos, nunca amantes. Leio só o teu e o meu sorriso em jeito de confirmação. Química. Que assim seja, mesmo que para sempre, mesmo que nos trame numa ou noutra rua do destino. Carícias face dentro, dedos entre dedos, mãos decididas e risonhas e eu volto a amar-te. Desta vez sem discussões.

sexta-feira, 20 de setembro de 2024

A Nossa Caminhada


Tropeças-me a caminhada. Não podia olhar para trás sem que me entrelaçasses no passado, o teu passado, o meu presente. Não podia ouvir o teu nome sem voltar o olhar, sem que mais uma vez me agarrasses. Desprezo a minha fraqueza. Não consigo esconder-me dos outros, pouco agora de mim mesmo. Não importa se largámos a mão, não importa se algures lá atrás esquecemos a estrada que se enleava à nossa frente, não importa, sequer, se ignorámos as pegadas. Encontra-me, mais uma vez, uma última vez. E não me largues mais, nunca mais.

terça-feira, 10 de setembro de 2024

Inteligência Tardia


Às vezes olho pelo canto do olho e ainda te vejo. Ainda nos vejo. Às vezes ainda passo os dedos pelos bilhetes de cinema sempre singulares e penso sempre nos finais, quem sabe se adivinha do tempo que nos condenava. E agora, em retrospetiva, depois de ter olhado pela segunda vez e de ter sentido a tua ausência bem ali do meu lado, depois de reparar nos erros e de me ter sentido pequeno, só penso que o teu coração sempre teve dois sentidos. Deixaste-me entrar e apesar de teres contratado um guarda, consegui sair.

sexta-feira, 30 de agosto de 2024

The Darkest Fears


Ficam-me no ouvido, todas as histórias que deixámos por contar. Ficou tanto para trás, tanto que poderia ter acontecido. Cometemos tantos erros, cedemos à mágoa, renunciámos ao prazer, e hoje tudo se esbate como qual brisa gelada. Os nossos dentes batem, as nossas mãos descolam-se. Afinal largamos a mão para unir os corpos e combater a chuva. Hoje temos medo, temos os dois medo. Não negues, eu sei que também tens. Mas o meu medo corre mais do que o teu, eu vejo os minutos passarem enquanto tu dormes. Não vás, não sem mim. Podemos morrer os dois.

segunda-feira, 19 de agosto de 2024

Batteries


És, assustadoramente, controladora do meu estado de espírito, da maneira como eu vejo a vida e do que quero fazer com ela. Podia até dizer que representas as minhas pilhas, mas não gosto de pensar assim. As pilhas acabam e portanto tu acabarias também. Quando tu acabas eu acabo também. Bem pior que tu. Morro devagarinho, contigo no meu olhar, com a tua expressão de desprezo que me mata. Agora és, irreversivelmente, dona de mim e sim, podes renegar tal poder, mas a que custo? A custo da minha morte lenta? Entreguei-me, no sentido mais amplo e comprometedor da palavra e, apesar de tudo, não me arrependo da minha decisão. Digo eu, com a minha pouca experiência, que momentos maus existem, mas que não têm de durar para sempre. Pelos menos no amor é assim. Resta saber se nós somos amor.

quinta-feira, 8 de agosto de 2024

Ritual de Passagem


Espero que não reconheças a minha ausência. Espero que entendas que a melhor forma de te fazer feliz é deixar-me ir. Espero, acima de tudo, que me compreendas e saibas avaliar a minha decisão, no nosso enleio atámos demasiados nós, quiseste cortá-los, mas peguei na tesoura e não quis mais ver o nosso caminho, onde sempre tropeçámos. Quando me levantaste e eu tropecei por nós os dois. Desculpa, se o vento me leva. Quero que saibas que nunca te deixarei, eu vou estar presente onde não me conseguires ver. Eu rendo-me a quem me vier buscar. Será mais feliz assim.

domingo, 28 de julho de 2024

PaceMaker


Estou sentado em frente à lareira, numa cadeira vermelha e pequenina de quando ainda era criança. Está pálida, velha e gasta. Realmente, o tempo não perdoa. Estou sentado em frente à lareira com a cabeça baixa, tentando aquecer este coração. Pálido, velho e gasto. Tenho de lhe dar corda com frequência e mesmo assim não bate muito depressa, quanto mais com muita emoção.
Ajoelhas-te ao meu lado, e perguntas se não gosto de ti? Gosto, é claro que gosto, respondo.
É de mim que não gosto, acrescento em pensamento.

quarta-feira, 17 de julho de 2024

Behind Closed Doors


Há alturas em que a vida vira do avesso. Em que perdemos o rumo, nos desencontramos e tudo muda. Ou pensamos que muda. Encontramos novas pessoas, novos desafios pelo caminho... e por momentos parece que esquecemos o passado e tudo o que ficou para trás. então eis que ele volta, como onda que nos arrasta pelo mar dentro. Eis que entendemos que não somos capazes, que nunca vamos ser, de deixar o ontem fechado atrás da porta de um quarto. Porque, por vezes, essa porta tem vida própria e grita, abre-se sozinha, deixando-nos sem fôlego. Indefesos, expectantes, cheios de esperança que venha o presente, o futuro, e que tenham a força que nos falta, a coragem que não tivemos de dizer chega e, com um só gesto, fechar a porta, mais uma vez. De vez?

sábado, 6 de julho de 2024

Cinco


Vejo-te como a minha maior inspiração, num horizonte longínquo, distante dos pensamentos mundanos. Queria que o tempo parasse por isso finjo esquecer-me de todos os segundos passados, de mãos dadas e corações amarrados, a olhar a lua e a contar as estrelas. As nossas contas nunca eram compatíveis por isso ficávamos ali, tempo indefinido, até tudo bater certo. Pedes-me sempre para te cantar ao ouvido melodias calmas, histórias, capazes de te transportar para o mundo dos sonhos. Comparo sempre esses momentos à minha infância, quando brincava com bolas de sabão. Deixaste os monstros da tua folha de papel e juntaste-te a mim e às bolas de sabão, que dentro de si trazem sempre um sonho. Conforme o sítio onde elas rebentem, imaginámos qualquer coisa que nos leva a pensar que o mundo vai ser melhor. E nessa altura é... o nosso! Hoje deixo-te com uma bolinha de sabão, brilhante e bem especial, que rebentou no meu coração.

terça-feira, 25 de junho de 2024

Inner Rainbow


Dentro de mim, o clima é instável e os dias são longos ou curtos, sem quererem saber da estação. Dentro de mim não há verões nem invernos, há dias de chuva e dias de sol, há noites de lua cheia e noites de trovoada. Dentro de mim, a minha alma é a cor, que abunda nas brisas e ventos. E é quem me protege e segura da chuva e do fogo. Dentro de mim és tu, vida, quem me suporta e quem me empurra.
Quando dentro de mim está sol, ele brilha no meu olhar. Quando dentro de mim há chuva, ela cai pelos meus olhos. Mas o meu sorriso é feito do arco-íris, a mais bela mistura do sol e da chuva.
Dentro de nós, há dias de sol e noites de lua cheia, há dias de chuva e noites de trovoada. Dentro de nós há tristeza e há alegria. Mas se alguma não houvesse, nunca seríamos felizes, pois jamais veríamos o arco-íris.

sexta-feira, 14 de junho de 2024

Reparações


Há dias em que o mundo nos parece mais longe, mais suspenso. Dias que até podem começar com sol e céu limpo nas notícias. Dias ingratos. O chão foge e as paredes avançam numa ameaça claustrofóbica. Nós? Ficamos cada vez mais quietos, cada vez mais sufocados. Pedimos ajuda mas ninguém ouve, ninguém quer saber. O nosso rosto espelha tristeza, incompreensão pela viragem súbita da previsão do estado do tempo. Assistimos a vidas que não as nossas, quem sabe na busca de algum conforto, desconhecendo a capacidade nula que os outros têm de travar as nossas lutas interiores. Há dias em que somos mais pequenos, mais frágeis, onde o nosso lugar é debaixo do chuveiro apaziguador e mudo, enquanto as gotas de água, misturadas com o sal que nos escorre cara abaixo, pintam imagens de dias felizes. Há dias de desilusão, dias em que o único remédio é o abandono temporário do corpo meio vazio num beco qualquer, para depois o recuperarmos com um espírito mais aberto.

segunda-feira, 3 de junho de 2024

Os Porquês do Amor


Amo-te, mas não sei como, nem porquê. amo-te porque o meu coração grita por ti, porque a minha boca pede a tua. Amo-te porque conquistaste a minha alma. Amo-te porque estás para mim como a lua está para o céu, como o brilho está para as estrelas. Amo-te pelas flores que plantas no meu ventre, pela sede que instalas na minha garganta, pelos arrepios que dás à minha pela. Amo-te porque é bom e faz-me bem. Amo-te porque me faz mal, e há dias em que adoro sentir sabores amargos por baixo da língua. Amo-te porque sei que és a outra metade do meu coração, da minha alma, da minha face e do meu corpo. amo-te porque instalaste o bichinho do amor no meu coração sem pedir licença. amo-te por toda a pessoa que me mostras. Amo-te por nunca me teres desiludido. Amo-te por me amares, e por saberes fazê-lo. Amo-te porque ainda tenho esperança. amo-te porque o destino te pôs no meu caminho. Amo-te porque o meu coração cita e os meus pulmões te respiram.
Amo-te, simplesmente, amo-te. Amo-te porque sim e porque não, e também te amo sem porquês.

sábado, 25 de maio de 2024

Remember Yourself


Tu tens o sol em ti. Dentro de ti. E agora teimas em que seja noite constantemente... É preciso lembrar-te, que todo e qualquer ser vivo precisa de luz? É preciso lembrar-te que, apesar de nem todos precisarem de ti, eu preciso indiscutivelmente?
E tu... Tu precisas de ti, também. Deixa essa luz escorrer-te melodiosamente pelo rosto. Deixa, por favor...

quinta-feira, 16 de maio de 2024

Espectadores


Deitei-me na cama de lençóis enrolados, pois esta manhã o tempo de os arranjar escapou-me, os caracóis de cores incertas esmagados contra a almofada e os olhos fáceis, como um livro sem dono, fecham-se, porque hoje já os leste demasiado. Para minha alegria, acertaste na teoria de vácuo em mim, de simplicidade e timidez.
Expulsa o público da sala, apaga as luzes e só depois abre as cortinas. Sabes que tenho pavor ao público, o palco é um terror. Hoje, quero que sejas a minha única espectadora.

terça-feira, 7 de maio de 2024

Voo Raso


Canta para mim mais uma vez. Sorri-me mais uma vez. Beija-me mais uma vez. Quero roubar-te outra vez. Pode ser só amanhã, afinal não é uma noite que te faria grande diferença. Ou será que fazia? Será que essa noite abriria a porta que permanece entreaberta à tua espera? Ou será que seria apenas mais uma noite de prazer e cumplicidade mútua onde as peças que se movem por entre o luar são somente os nossos corpos e não as nossas almas?
Diz-me que sim para eu ir morar para a paixão. Diz-me que não para eu não voltar a cair. Ou não me digas nada, às vezes tudo sabe melhor quando não se têm as palavras e explicações e não se pensa, e eu não penso como és impossível de alcançar numa noite, em duas noites, em mil e uma noites. E eu não penso como o meu melhor não és tu, e eu não penso como provavelmente só estou a aumentar o precipício para a minha queda suicida. E eu não penso como o teu mal é o meu bem e como a cada noite que passa vais deixando a tua marca nos meus lençóis para eu me moldar e permanecer.
Vamos voltar a dançar ao som da tua voz, ao som do batuque da minha janela quando faz vento, ao som da chuva do verão, ao som do nosso respirar. A verdade é que tenho frio e estou desconfortável, é que me fazes falta nem que seja só pelo teu sabor ou pelo teu calor. A verdade é que eu preciso de ti nos meus olhos, no meu sorriso, nas minhas canções, inspirações, nas minhas noites que perdem a graça sem o teu humor. Vem. Vem a voar. Só para mim.

domingo, 28 de abril de 2024

Olá Solidão


Hoje o mundo acordou-te às escuras. Percebes que o queira fazer, inovar e promover, mas não gostaste. Não gostaste de acordar na escuridão, ser atormentada por medos e angústias que te afetavam o coração. Tentaste abrir a janela, a amargura impediu-te. Tentaste abrir a porta, o medo conteve-te. Foi então que decidiste refugiar-te na tua própria escuridão, fechaste os olhos e debruçaste-te sobre as tuas pernas. No silêncio do tormento apenas as tuas lágrimas se manifestavam. No fundo querias que te visitassem, querias que te dissessem que estavam ao teu lado a protegerem-te. Mas tudo parecia vazio e só, e tu eras mais uma alma que entristecia tanto como tornava pesado o ar desse mundo. Tira-te daí! Porque a única coisa mais fatal que a dependência aos outros é a sua total independência.

quinta-feira, 18 de abril de 2024

Feira Popular


Às vezes não sei, e quando acho que sei estou enganado. Rejeitas, queres, queres, rejeitas. Deixas-me tonto, tanto me sugas como me cospes fora. Mas continuo a cair nos doces que me dás à alma, burrice minha talvez. Tenho o coração cansado de tanto rir e chorar como se estivesse num carrossel. Está cansado e quer dormir num embalar de meia noite e acordar quando te tiveres decidido. Mas diz ele que é criança de birras e só acorda se valer a pena. Vês? Lá estás tu! Tens o cérebro a andar em carrosséis de feiras duvidosas e o meu coração segue. Porque quem gosta segue. Segue, chora, ri, completa, cai, corre, delira, amedronta-se. Tenho uma feira aqui ao pé, mas sabem que mais? Agora gosto mais de carrinhos de choque.

segunda-feira, 8 de abril de 2024

Fuga


Tenha na mão uma rosa e nos lábios um beijo para te dar. E toco à campainha. Ouço, lá dentro, ecoar o som estridente que faz seguido de um silêncio. Silêncio de não haver passos em direção à porta nem risos de alegria.
Quebra-se o silêncio com o vento e o bater da porta das traseiras. Ligo-te e dizes que não estás em casa. Ouvi a tua voz dizê-lo na rua de trás mais alto do que no auscultador.

quinta-feira, 28 de março de 2024

Fronteiras


Afinal o que fazes tu enquanto eu vejo museus, enquanto piso ruas que não as minhas e amo camas que não as tuas? Afinal o que fazes tu enquanto me curo, enquanto faço malas e carrego baterias para recuar quilómetros de saudades que estupidamente te tenho? Afinal, o que fazes tu enquanto falo noutra língua, enquanto caminho rodeado de monumentos que me obstruem a visão como que compreendendo a fronteira que nos separa, os países que nos acolhem? Tudo. Tudo aquilo que fazias quando te metias no carro de bancos largos e as ruas eram pacatas e corriqueiras. Tudo aquilo que fazias quando falávamos na mesma língua e eu pensava que não precisava de viagens, de malas feitas à porta. Afinal tu sempre fizeste tudo. Quer eu visse museus ou me deitasse contigo. E aí é que está a fronteira.

segunda-feira, 18 de março de 2024

The First One


Quantas oportunidades desperdiçamos? Quantas vezes não seguimos em frente porque nos preocupamos demais com o que está ao nosso redor? E depois, quantas vezes nos arrependemos de não o ter feito? Quantas vezes não fizemos já estas perguntas? De pouco ou nada adiantou. O que perdemos dificilmente será recuperado. Temos pena. Lamentamos o que deixámos para trás e não encontramos um sorriso no presente porque nele falta o que recusámos no passado. E vivemos o agora, cruzando-nos com o antes a todo o momento, moendo o coração e a cabeça, desejando ter pronunciado o sim em prol do não. Perdemos sorrisos. Desperdiçamos momentos. De que vale afinal?

sexta-feira, 8 de março de 2024

Sete Chaves


Fechei-te numa gaveta. Arrumei-te. Disse-te até amanhã e dei a volta à chave. Tu não tinhas forças para o fazer. Ou não querias. Agradava-te o facto de eu ter a gaveta aberta para que pudesses sair quando quisesses, mesmo que eu não o quisesse. Então fechei-te. Não soubeste merecer essa vida que te dei, essa abertura da minha gaveta. E, numa das vezes em que saíste, quase deitavas a gaveta ao chão e a fazias em pedaços, tal era a tua força. Por isso tive de te fechar. Desculpa. Há dias em que é melhor assim. Fechar-te. Dar a volta à chave e dizer até amanhã.

terça-feira, 27 de fevereiro de 2024

Retalhos


Somos uma manta de retalhos. Sorrimos e coexistimos. Podem até existir palavras trocadas e momentos partilhados. Podemos, quem sabe, descobrir alguém de quem gostamos, muito, talvez. Aparentemente tudo está bem e o mundo é perfeito. Mas a nossa manta é feita de retalhos. Cada um sofre para dentro, para si. Mostra um sorriso falso que ninguém interpreta como tal porque ninguém conhece o suficiente. Cada qual tem a sua história e quase ninguém a conheces e quase ninguém a viu. Veio de longe, ou talvez de perto. Não importa. Vieram de mundos distintos, de universos distantes. E um e outro representam apenas pedaços. Pedaços que não encaixam. Não passamos de pequenas partes perdidas do que foi, num outro sítio, a uma outra hora, uma grande e quente manta de lã. E aqui estamos. Ali estamos. Perdidos em nós mesmos. Desejando secretamente que o tempo volte atrás. Juntos não somos mais que restos de uma perfeição de outrora cosida à pressa por homens desajeitados. E nós? Nós não queremos saber. É a obrigação que manda, não o coração. Esse está longe. Muito longe. Perto, muito perto do que fomos antes. Com quem fomos antes a mais perfeitas das mantas.

sábado, 17 de fevereiro de 2024

Pontos, Letras, Folhas & Algo


Sou um ponto. Um ponto escondido, curioso mas disperso. Que se afasta e se repõe no lugar mais correto. Sou uma letra, entre milhões de palavras. Entre textos intermináveis do eu de muita gente. Uma letra vazia, mas que até pode ser importante. Sou uma folha, ora preenchida das mais quantas letras e pontos, ora vazia, límpida e singela. Sou um aglomerado de papéis, desorganizados e confusos. Atentos, perspicazes. Maléficos e impiedosos. Sou algo. Um rasto de sonhos. Felizes e ausentes.

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2024

Player One


O dia, que horas antes era cintilante e fabuloso, escureceu. Não se via ninguém na rua. Os carros eram escassos. O silêncio era totalmente ensurdecedor. Apenas os postes de eletricidade iluminavam aquele lugar onde decorria a minha vida. E eu, um dos poucos seres vivos que ali estava, no meio da escuridão. O ar gélido arrefecia-me os braços, os lábios começavam a dar os primeiros sinais de desidratação e o meu corpo enquadrava-se numa melodia onde a orquestra estava afinada e coordenada em relação ao frio. Já não sinto o que sentia. Vivo um presente completamente fantástico, e espero no futuro não dizer mal do que estou a viver agora. Certamente não o direi, mas tenho a perfeita noção que a vida é composta por altos e baixos, uma inconstante total onde vagueamos por onde nos levam, por onde queremos ir, por onde nos deixam e por onde somos capazes. No fundo, é um teste à nossa integridade e inteligência. Um jogo real onde jogamos com utensílios, sentimentos e pessoas reais.

domingo, 28 de janeiro de 2024

Vibrações


Sentado no carro, com a música a soar aos meus ouvidos, a calma e simultaneamente o medo fazem-me companhia, até que chegas tu para desatinar o meu eu, para me deixar sem saber o que sinto e o que penso. Sentas-te a meu lado e eu abro a boca para te perguntar o que fazes ali, colocas o dedo nos meus lábios em jeito de os silenciar mesmo antes de sair qualquer palavra. Dizes que não preciso de dizer nada, enquanto me olhas nos olhos e me pedes desculpa. A música acaba e eu não sei porque pedes desculpa. Tudo o que me fazes é certo.

quinta-feira, 18 de janeiro de 2024

Scrambled Mess


Há momentos em que não sei o que fazer, o que dizer. Momentos demais, até. E não se trata de proferir para o mundo lá fora, é uma questão de não saber o que explicar cá dentro. Tudo parece a maior das confusões. Nada se assemelha à simplicidade. Ninguém está onde é suposto. É como se estivesse parado no centro de um mundo em roda viva cheio de outros centros onde tudo parece normal. Não está!. Nada está, na verdade. A confusão instala-se. O desconcerto permanece. Como sigo um caminho que desconheço? Como vou, uma vez mais, construir cada pedaço de mim? Convencer-me, suportar a dor e voltar a arriscar perder cada bocado? Quero explodir e não posso. Quero ir embora e ainda não consigo. Quero não sei o quê. Desejo não sei que mais.

segunda-feira, 8 de janeiro de 2024

Rasgar o Passado


Não, pára, já chega. Chega de me indicares o caminho errado, chega de me vendares os olhos e dizeres que, quando eu cair de tanto rodar, me vais agarrar. Dizes-te guerreira e combates comigo, desferes golpes mas não me queixo. Mas porque não me deste uma arma também? Este sangue não é a brincar. Chega.
Os ausentes fazem sempre mal em voltar. Destroem-nos o coração e não nos deixam rasgar o passado.